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pintovieiradesenho

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segunda-feira, 29 de agosto de 2016



Este blog destina-se a divulgar 
as obras de artes plásticas 
que fui realizando desde 1965 
- mostradas em parte 
nas imagens das "páginas".  
Também noutras "páginas" 
se encontram textos diversos 
que entretanto fui produzindo.

Nesta página, "mensagens", aparecerão textos do momento, em secções próprias, imagens de obras recentes, notícias e, também, textos mais longos e curtos que tenham sido produzidos recentemente e que se justifique a sua divulgação no momento.

joaquimpintovieira1@hotmail.com

OS OUTROS BLOGS QUE EDITO SÃO 
http://drawingdesenhodibujo.blogspot.com
http://pintovieiraensinodesenho.blogspot.com
http://pintovieirapupila.blogspot.com
http://atalhadoagostinho.blogspot.com

BLOGS DE AMIGOS














Mensagens da quinzena


De 16 de ABRIL 
a 30 de ABRIL de 2018




.  ESQUÍROLAS DO DESENHO

.  DESENHOS SEM PENSAR

.  DESENHOS no iPad.




 
. Duas Figuras Típicas falam sobre  

 A CONSCIÊNCIA NA PINTURA E NÃO SÓ.

.  iPADs dos SAPOS

.  ESQUÍROLAS DO DESENHO

.  DESENHOS SEM PENSAR

.  AGUARELAS

.  O OUTRO

. UMA IMAGEM E QUASE
  MIL PALAVRAS

. EXPOSIÇÃO FAUP . Projeto RISCOTUDO
  DESENHO setorna PINTURA 
  10 montagens de aguarelas e desenhos

. PINTURAS NO iPad
. NOVAS PINTURAS A ÓLEO
. NOVAS PINTURAS NO iPad
. AGUARELAS AO BAIXO
 

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ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

Muitas das anteriormente publicadas podem ser vistas na Página PEQUENOS TEXTOS NO BLOG



 Esquírola cento e setenta e nove



A obra é feita pelo observador? Marcel Duchamp dizia que, são os observadores que fazem os quadros. A Obra Aberta de Eco, vai no mesmo sentido. A filosofia pós-modernista cultiva-o. Mas será isto verdade, útil, eficaz, conveniente, oportuno?  Se quando observo uma pintura, ou qualquer outra coisa, eu anteponho a minha conceção das coisas, os meus valores estarei a impedir-me de conhecer o outro. Qualquer possibilidade de haver alteração no nosso ser, que lhe seja propícia e vantajosa, só pode ser feita em completa liberdade mental. Liberdade mental implica recusar o aprendido, o sabido. Escutar o outro, ou a natureza, ou um objeto é uma atividade básica para que se possa aceder a qualquer coisa que chamemos meditar. Meditar é palavra difícil de compreender. Mas se aceitarmos a palavra conhecimento também não ficamos melhor. Discernimento e não condenação podem ajudar. Só na total ausência de preconceito sobre o outro podemos descobrir, não só o que está no outro, mas o que está em nós. Nós vemos uma obra de acordo com as nossas tendências particulares, nosso saber e idiossincrasia provocando inevitavelmente a perda de quase tudo aquilo que o autor deseja transmitir.  Devemos ver sem o controle da mente consciente e deixarmo-nos levar pela obra e esperar que ela se revela sem que haja da nossa parte, vontade, sentido crítico, análise e juízo. Hoje no tempo da pós-modernidade tudo é ideia e sensação fugidia. Ninguém pára a ver obras nos CACS. Uma ideia, de fato, vê-se logo, como na “fonte”. Não há nada para ver. Duchamp era coerente e para ele a visualidade não tinha interesse. Esta questão da visualidade é central. Trata- se, de fato, de Perceção que é a base da nossa cognição e também da nossa emoção. Perceção não só visual. E a perceção que é a base da observação implica dominar complexos processos de apreensão e de conscencialização do real. Tal como os músicos bem sabem, e nos dizem, só depois de ouvirem a obra muitas vezes ela se revela. Nós só vemos uma pintura revelar-se se a virmos muitas vezes. Isto não diz nada a uma concetualista que deseja, acima de tudo, o já e o novo, já. Tudo para esquecer. Quem fez a obra foi o Outro.


Esquírola cento e setenta e oito

Num tempo em que a pintura é questionada mais uma vez, mais do que na sua base oficinal, na sua razão ontológica e expressiva, com o futuro da Inteligência Artificial, convirá reencontrar uma  vertente da vida artística nas artes plásticas que também o fez e faz.  O ataque da pintura feita pelo conceptualismo que ainda hoje se mantém, sem que se vejam frutos doces. Alguns querem ver na afirmação de Leonardo, a pintura é coisa mental, o suporte do concetualismo em arte. Mas é um equívoco. A sua origem ou afirmação terá outros motivos e influências. Porém, ele introduziu a mais profunda alteração que a experiência artística se viu enquadrada. A pintura foi mais atacada disciplinarmente do que pela fotografia, que se tornou mesmo, desde o início, um forte aliado.  Porque teve êxito a doutrina concetualista proposta e instigada por Duchamp? As suas origens vêm de Max Stirner, que Duchamp apreciava na suas vertentes anarquistas, com o isolacionismo, individualismo, egoísmo. A pintura que era no final do século XIX um feudo do elitismo, do funcionalismo, do snobismo merecia ser atacada. Atacou-se uma tradição e prática europeia, criada na Idade Média com os monges ilustradores no combate contra a ideologia muçulmana e afirmada e cultivada em Itália duma forma extraordinária, sobre todos os pontos de vista. O cristianismo que é a religião que coloca o homem  igual entre si e Deus, deu azo a uma atividade produtiva em termos de imagens da representação que o homem alguma vez conheceu. Esse processo foi, durante 600 anos, criando na Europa um património da arte da pintura como nunca se viu noutra cultura e noutra parte do mundo. É contra ele contra essa disciplina artística empirista que se revolta o concetualismo. Duchamp tem na sua implantação uma importância seminal lançando em obra e em teoria informal um quadro de ação.  Dizia que estava mais interessado em ideias do que nos produtos visuais. Afirmava, com razão, que os artistas impressionistas e abstratos só pensavam em agradar à retina. Ele pensava que a arte devia servir a ideia. Surgiu no tempo em que a disciplina agonizava entre o academismo vazio, convencional, cego ao mundo e o advento do experimentalismo formalista. Mas sempre se soube que o êxito do concetualismo acenta em várias vertentes algumas puramente oportunistas. Pode-se ser artista sem ter qualquer formação específica. Só ideias, para satisfação do próprio artista (individualismo e egoísmo) e para que outros as concretizem. A “arte projeto”. Todo o ser humano é um artista, não só quem joga xadrez. Livrar o homem das dificuldades disciplinares e mesmo da sua implicação corporal em todas as artes é a chave. Rudolf Steiner pela mesma altura, também o reinvindica, mas valorizava a expressão e o sentimento contra o intelecto. Retome-se o programa. Recusa da manualidade –coisa de operários– como condição da cognição e emoção humanas, a recusa da expressão do autor na relação com a plástica e a visualidade, a redução da estética ao que a mente pensa disso, a recusa dos valores da qualidade e aperfeiçoamento, a destruição completa de vínculos disciplinares. O combate da pintura contra a IA vai assim continuar. Toca a reinventar a pintura e a alargar a sua exigência disciplinar.






DESENHOS SEM PENSAR
mostrados e apresentados sistemáticamente no blog drawingdibujodesenho.
Aqui alguns desenhos recentes entre os realizados diariamente.





12.04.18

























28.03.18


























15.03.18

























01.03.18



























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DESENHOS no iPad
Nova série de desenhos há tempos experimentada e em desenvolvimento pois dá algum gozo.
Tem um Tema. Um Medo





















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O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio.

(os textos já publicados podem ser vistos, MAIS Á FRENTE e na Pág.
PEQUENOS TEXTOS no Blog)


RUBENS






























Peter Paul Rubens, 1577-1640, nasceu na Flandres. É um dos maiores pintores do Barroco. Fez mais de 9000 desenhos e um deles é o que se vê aqui. O  Museu do Prado vai mostrar a sua vasta coleção de pinturas de esbocetos, desde alguns com cerca de 10 cm, até outros com 1 metro. Tal como os desenhos os esbocetos são produtos direto da sua mão e mente. As milhares de enormes pinturas eram também pintadas por muitos outros pintores com quem trabalhava – chegaram a ser 25. É o pintor das cortes do grandioso, como a Corte espanhola. Velázques conheceu-o mas era o pintor de câmara do rei e designer das festas reais. A decoração dos palácios e igrejas eram para Rubens. Este desenho como outros semelhantes no tema e processo é muito esclarecedor das suas capacidades e caráter . Ele desenhava da imaginação tratando os temas bíblicos e mitológicos e também desenhava do real, como no caso o real popular, como o fazia com paisagens aparentemente vulgares. São esquissos de casais de camponeses dançando. Ele desenha em direto ou de memória as variantes da composição ou articulação dos corpos no espaco, como fazia na sua pintura. É curioso como ocupa a folha na diagonal em três faixas. O papel era raro. O traço muito tenso e curto agita-se com uma secura e firmeza notáveis. Apanha o essencial que dá sentido ao movimento dos corpos em relação no espaço. Será um desenho de 1627, 13 anos antes de morrer. Um autor feito mas que continuava à procura da vida e a ver como era a realidade mesmo que na sua pintura trate dominantemente de temas do imaginário cultural. Nos retratos ele está sempre ali. Naquele raro momento. Viveu jovem, 8 anos em Itália, e de Veneza trouxe a libertação expressiva plástica da pintura. Ver um quadro de Rubens chega só a1metro de distância. Em Ingres podemos encostar o nariz à tela. Foi uma enorme mudança da experiência da imagem da pintura como objecto.











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PINDUAS/PINDOIS   Pinturas em duas faces e dois tempos


Projeto de pintura em pequena dimensão, em objetos ou superfícies anexas ou contíguas. Como as superfícies ou planos da pintura e da imagem são normalmente opostas quando de vê uma delas não se vê a outra. As superfícies podem ser em número superior e dar origem a situações de desenvolvimento temático ou semântico mais complexo. A exploração da condicionante temporal da apreensão e observação das imagens é o vetor mais importante do projeto pois deve permitir criar inusitadas situações expressivas.

Os objetos são em madeira de diversas árvores e as superfícies são preparadas com colas, tecidos e papeis.  São pintadas em acrílico, esmalte sintético e óleo de água. Também se utilizam pigmentos diversos, purpurinas e folha de ouro.

As dimensões e formatos variam com o tipo de cortes nos troncos das árvores. O clip
presente nas imagens dá a sua dimensão.













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O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio.

(os textos já publicados podem ser vistos, MAIS Á FRENTE e na Pág.
PEQUENOS TEXTOS no Blog)



 AUGUST MACKE


































August Macke,1887-1914, foi um pintor alemão, que morreu jovem como se usava na altura. Cultivava a tendência expressionista, no pós-impressionismo, dentro do grupo, Der Blaue Reiter,, de que foi fundador, e armava, sem bem o saber, os arraiais da abstração. Esta aguarela, 29x22 cm, de 1913, bem o demonstra ou evidencia. Em 1912, Duchamp pintava e expunha sem qualquer êxito o, Nu descendo a escada, uma obra futurista exprimindo a ideia de movimento e da 4ª dimensão. Eram os vetores do pensamento modernista da época. Mas na base do formalismo abstrato, que Duchamp desprezava, estava este espírito e este entendimento do que é um quadro, uma pintura e o que se espera que ela trate ou nos toque. Ainda temos presente uma porção da experiência real, do dístico, da rua, do balcão mas tudo começa a ser subjugado pelo jogo absoluto dos valores plásticos. A cor, a composição geométrica ou informal, a forma, o ritmo, a textura. Ainda hoje este quadro é satisfatório para muitos pintores e, cem anos depois, não deixa de ser com ternura que olho para estas aguarelas, tão delicadas, espontâneas, seguras, sabendo-se que não se sabia bem o que se estava a fazer. Com 27 anos deixou de seguir esse caminho que trilhava com muito empenho, crença, fascínio e surpresa do feito. Outros o fizeram e fazem ainda hoje.















O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio.

(os textos já publicados podem ser vistos, MAIS À FRENTE e na Pág.
PEQUENOS TEXTOS no Blog)



Pintor Grego


























Pintor grego anónimo, cerca de 450, AC, é o autor desta taça em terracota. A cena representará a oferenda diante de um altar. A Pintura de fundos ou campos circulares de taças foi muito frequente na arte da pintura cerâmica na gécia antiga. Depois passou para os pratos. Mas é sobre o desenho/pintura deste grego, “outro” de há 2500 anos, que eu quero escrever; quero ver. O campo circular no desenho é dos mais complexos porque não tem axialidades fixas e tem um centro que o é de tudo à sua volta. O próximo e o exterior. É um campo que encerra mas sem pressão clara. A orientação, como neste caso, é clara e a ocupação do centro na vertical pela figura principal, também. Para a esquerda se coloca a outra figura que indica a ação. Do centro da figura, do centro do circulo e mão, sai uma linha que é quase um diâmetro e parece apoiar a leve queda traseira da figura. O braço direito contraria, também, essa tendência de queda. É esse o elemento principal da ação. Admitamos que o braço direito não existia. O equilibrio desaparecia e os sentidos da ação ou imagem seriam outros. Não se sabe se existiria algo sobre a cadeira ou base à esquerda, O desenho é linear, como um arremedo de mancha no lenço sobre os ombros que se liga ao cabelo. Três grupos de conjuntos de linhas verticais ondulantes alimentam essa expressão de movimento suave. Também dois conjuntos de formas ritmadas, muito pequenas, são indispensáveis, na base do vestido e na base do objeto. Façamos a experiência de retirar qualquer destes elementos e antever o que se ganharia ou perderia. É esta, sempre, a prova do valor de um desenho. Se perderia também a graça insinuante que um pequeno gesto, como motivo, faz o que é importante.








ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

Muitas das anteriormente publicadas podem ser vistas na Página PEQUENOS TEXTOS NO BLOG



Esquírola cento e setenta e sete



Há muitos tempos surgiu o castigo, e daí o prémio? O que cada humano espera da vida é que os outros o premeiem? Haverá gente que se deita com a cabeça no travesseiro, ou com ela mesmo em pé, que se põe a pensar em receber um prémio? Nesta carruagem do Metro quantos esperam que a sua vida teria mais sentido se lhe dessem um prémio pelo que fazem, com prazer e dor, todos os dias?  E aquele que faz qualquer coisa que não esperava e que o surpreende e encanta deve achar que merece um prémio por isso? Quando se fez um desenho mau deve-se ser castigado? E quando se faz um desenho bom, ou vários, deve-se ser premiado?  Os prémios interessam a quem os dá como aos que os recebem? Nas cerimónias públicas aqueles que recebem os prémios são mais vistos do que aqueles que os concedem? Dar um prémio provoca uma certa dependência, da pessoa que o recebe, daquele que o dá? É uma honra receber um prémio se consideramos que se fez nada mais do que se faz com naturalidade? E há atos que são mais merecedores de honra que outros? Porque foram realizados sem que a pessoa estivesse a realizar ou a cumprir naturalmente as ações e pensamentos que lhe são próprios?  Devemos admitir que atribuir prémios a certos cidadãos melhora a sociedade? Ou que as pessoas que realizam com naturalidade as várias tarefas da sua vida esperariam que houvesse prémios para elas? Uma sociedade sem prémios era uma sociedade em que as pessoas não reconheciam nos outros as virtudes e os qualidades impares que elas próprias não possuem? Ficamos diferentes por receber um prémio, por pensarmos que os outros nos vão ver de forma diferente? É bom pensar que somos reconhecidos como diferentes dos outros? E que os outros gostariam de poder ser como nós? É aceitável pensar que estas interrogações ou questões são pertinentes, ou contêm, em si mesmas, o mal daquele que pode achar que merece ser premiado?


Esquírola cento e setenta e seis



Há dias foi retirada das paredes da Exposição-Feira ARCO, em Madrid,  uma obra de um artista espanhol, pouco antes da abertura. Estes atos geram sempre polémica. Os que defendem a ação dos que as retiram e aqueles que defendem que elas deveria continuar expostas. E de novo voltaremos um dia destes a outro fato semelhante. É possível e importante que estes atos decorram em países em que há total liberdade de expressão e comunicação, como em Espanha. Mário Vargas Losa uma das mais prestigiadas figuras da cultura literária hispânica, a propósito do caso disse que , ” A Cultura deve manifestar-se com liberdade, agrade-nos ou não, incluindo a pseudoarte”.  Eu estou do lado dos que retiraram a obra.  Mas não por razões de natureza política de qualquer dos lados do conflito da vida política espanhola que, como Vargas Losa, considero anacrónico como europeu, inteletual e artista. Das nações não vejo a necessidade nestes tempos tão novos, estimulantes, atraentes e cosmopolitas mas que do seu crescimento só temos incertezas.  Kant afirmou, e é para mim uma “máxima”, que “a Arte é uma finalidade sem um fim.” Sempre fez para mim todo o sentido, até ao mais profundo do meu ser livre. Se um adepto do Real Madrid tivesse colocado na ARCO uma obra em que adeptos do FCBarcelona eram enlameados numa poça imunda, estaríamos perante uma imagem que tem um fim político/desportivo. Um Museu/galeria de arte é um espaço público específico, como há muitos outros. Aí esperamos encontrar o que lhe é próprio, o tal que não tem fim, supremo desejo espiritual. A arte serviu, antes da moderna sociedade liberal e democrática em que vivemos, para através dela as religiões e o poder político e pessoal exercer a sua ação e domínio. Mas hoje recuso essa possibilidade embora aceite que continuem a  haver obras de arte em que se fundem essas funções, não respeitando a máxima de Kant.  Como moralista aceito coisas que como ético nunca poderei tolerar. Sempre que o direito da sociedade, do grupo, seja manipulado por manobras hábeis.



Esquírola cento e setenta e cinco




A Veneração é uma consideração particular de relação entre dois seres.  Os animais não a consideram.  Se nós a consideramos é porque é importante para ser humano. Ou será pouco!? Tem origem do latim “venerari”, que significa a ação de reverenciar, de ter uma grande admiração pelo outro.  Não se tem veneração por uma ideia, por uma obra. Parece que a veneração espera vantagem, ganho, proveito. Há a veneração como idolatria, como prestar culto a uma divindade, a algo sagrado. Também pode ser amar sem “limite” uma pessoa que nos é querida, que exerce um papel especial na nossa vida. Será que a veneração tem na história da arte moderna e contemporânea uma importância ou um papel que nunca teve noutras épocas, embora a saibamos como Miguel Ângelo, por exemplo, era idolatrado por certos contemporâneos e o foi depois por adeptos? A pergunta é para que serve a veneração para um jovem, por ex., pela figura ou pessoa de um artista? Como já vimos, venerar uma obra não dá jeito. Conhecemos muitos casos em que parece haver veneração de várias pessoas por certos artistas? Sim conhecemos, direi eu. Toda a existência se perde se essa figura tutelar venerada e veneranda desaparece. Nunca experimentei esse sentimento e, como dizia o outro, isso não é uma vantagem. Nunca passei da admiração ou mesmo do fascínio. A questão essencial parece ser a de saber se viver afastado do outro é mais importante, do que se viver ligado ao outro. Na Meditação só se estivermos completamente sós a Fazemos. No conhecimento só o temos se nos afastarmos do objeto.  Então a veneração ou é um “interesse”, ou é uma dependência vivencial. Quem a julga cultivável?
 


Esquírola cento e setenta e quatro

Há dias voltei a dar o passeio dos tristes pelas coleções dos diversos Centros de  arte contemporânea da Península Ibérica, no seu todo. Voltou ao de cima o ”sem sentido”.  Para ali estão diversas obras, já aos milhares, que nunca mais dali sairão. Aqui o “sem sentido”. A maior parte não merecem sair. Mas as que merecem que sentido se lhes pode encontrar? Esta situação é nova. No início do século  XX não havia esta instituição do património e de um  sistema que o alimenta e se alimenta a si.  As obras ou se usavam ou iam para certas coleções de eruditos, seguindo uma tradição muito elitista, com 500 anos. Mas que sentido podemos encontrar nisto tudo que crescerá como sem sentido todos os anos, sem critério ou com critérios sectários e insondáveis e indizíveis. Atrás está a democratização da arte. Se a obra de Fernando Pessoa for toda destruída, para ele será indiferente. Para muitos de nós será pessoalmente uma perda vital. Não penso na sociedade. Enquanto o artista é vivo a sobrevivência da obra é para ele a sobrevivência de si.  Durante essa vida muitos artistas partilham com os outros, em pequeno ou grande grupo, essa vivência de algo que a todos diz respeito, tem sentido.  Como já o disse, é isso para mim a cultura. Partilha, nada mais. A vida só tem sentido, entre os homens se for dirigida para a oferta aos outros de oportunidades que cada um tem a possibilidade rara de criar. Utilizemos enquanto estamos vivos ou depois de mortos se outros as quiserem utilizar.  Não há outros seres vivos que vivam para isto, com este sentido. E ele transformou-se numa necessidade, o que é extraordinário! Aqueles de nós que no dia a dia ouvem as canções dos seus ídolos e as trauteiam, procuram esse sentido. A pintura que procuro ver, em fotografia ou no museu, em alguns dias, de algumas semanas, e de alguns  meses que se seguem, dão-me esse sentido.  Quando coloco nos blogs imagens de obras e textos só espero que, mesmo com um só visitante, se cumpra essa partilha de que tem algo para dar e aquele que se espera receber. E não há mais nada, como não o há no trabalho feito pelo operário na fábrica. Mas isso não é pessimismo ou deceção pela vida ou pela obra. É mesmo encantador nessa sua simplicidade de dimensão pequena e restrita. Que vale um milhão mais do que um?! O que conta é o sentido que se encontra só, ou sempre, no interesse desinteressado pela consciência do existir e partilhar nesse exclusivo tempo que nos diz respeito.


DESENHOS SEM PENSAR
mostrados e apresentados sistemáticamente no blog drawingdibujodesenho.
Aqui alguns desenhos recentes entre os realizados diariamente.



01.03.18


























15.02,18

























01.02.18

























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PINDUAS/PINDOIS   Pinturas em duas faces e dois tempos


Projeto de pintura em pequena dimensão, em objetos ou superfícies anexas ou contíguas. Como as superfícies ou planos da pintura e da imagem são normalmente opostas quando de vê uma delas não se vê a outra. As superfícies podem ser em número superior e dar origem a situações de desenvolvimento temático ou semântico mais complexo. A exploração da condicionante temporal da apreensão e observação das imagens é o vetor mais importante do projeto pois deve permitir criar inusitadas situações expressivas.

Os objetos são em madeira de diversas árvores e as superfícies são preparadas com colas, tecidos e papeis.  São pintadas em acrílico, esmalte sintético e óleo de água. Também se utilizam pigmentos diversos, purpurinas e folha de ouro.

As dimensões e formatos variam com o tipo de cortes nos troncos das árvores. O clip
presente nas imagens dá a sua dimensão.


                                        .....3 novas peças




 

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O OUTRO
  
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Vieira Portuense

 
 


























Francisco Vieira Portuense, 1765-1805, é um dos inúmeros pintores de grande qualidade que desde o século XVII, muito ignorados em termos dos  grandes museus mas de valor muito semelhnate às estrelas do sistema ocupavam as cidades da Europa. É um típico artista da EU. Se não tivesse andado por Roma e Londres teria morrido antes dos 40.  Muitos outros a habitam e nela vivem hoje podendo viver mais anos mesmo que as obras não se deixem ficar.  Esta pintura está no MNAA, em Lisboa, e é uma pintura muito boa. É uma das muitas pinturas religiosas que fez entre as raras pinturas civis, além do vasto número de retratos. Digo muito boa, termo pouco usado, mas que se devia cultivar entre nós. Há tanta pintura má que designar algumas de boas  é mesmo um dever de cividade. A reprodução/imagem não é muito boa, mas dá bem duas coisas. Um grande domínio do desenho, composição muito delicada articulando formas, figuras, movimentos sentidos e gestos. Uma pintura de efeitos e processos muito seguros. Coerentes, criteriosos, expressivos das texturas dos materiais e corpos, da luz e da cor.  As pinceladas são por vezes afirmadas, matizadas outras diluidas. O limite da mancha nunca é a linha. É utilizada uma variada e muito delicada maneira de sugerir o fim duma forma e o início de outra. As cores se fundem, se escurecem e iluminam pela suas próprias propriedades para a nossa habituada visão. Foi sempre a base da grande pintura. O putti lê o dito do epitáfio caído do alto da cruz, INRI, acrónimo em latim, Rei dos Judeus. O tema que nos surge agora quase sem sentido é duma extrema complexidade emocional, sentimental, simbólica e antropológica. Não há nenhuma imagem que tenha atrás de si uma cena uma história e enredos tão fortes embora em si vulgares naqueles tempos. Crucificar. Pintar um homem quase todo nú que já era nessa altura assumida e  reconhecidamente o filho de Deus na Terra, é de bradar aos céus. Que cultura poderia criar esta cena?










O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio.

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FRANCISCO LEIRO



















Francisco Leiro Lois, 1957, nasceu na Galiza e vive e trabalha em NY. Como me acontece muitas vezes encontrei a sua obra na NET, ou aquilo que dela se pode ver. É um escultor. Não um construtor artístico como os que por aí circulam e se designam “escultores”. A imagem é esclarecedora do homem e do processo. É uma obra realista centrada na figura humana com prevalência pela figura masculina. A estética assenta num brutalismo com raízes no expressionismo do início do séc. XX  e na arte popular, mas é inovadora. O tratamento formal é muitas vezes rude e primitivo. É, porém, sem rigor anatómico, duma grande consciência do desenho duma grande sensibilidade da força expressiva do corpo humano nos gestos, ações e cenas. A sua obra é dominada pela denotação. Isto é, a imagem vive do que a figura significa em si. Em alguns casos ela esta associada a outras criando as condições da conotação. Noutros raros casos vi cenas. As esculturas são dominantemente em madeira mas tem obra noutros materiais. As obras em madeira são em muitos casos pintadas. As peças de figuras são muitas vezes em tamanho natural e noutras a mudança de escala também surge ligada a essa corrente pós moderna do “gigantismo para parvo ver”. O que me fascina e atrai é a franqueza ou clareza dos temas e das figuras sempre portadoras de um significado forte mas elementar e singelo. Sempre o mais difícil e poderoso. Não só o Papa é Francisco.



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DUAS FIGURAS TÍPICAS falam sobre 
A CONSCIÊNCIA NA PINTURA E NÃO SÓ.



19ª conversa

1.1            – Escaleno, como te tinha anunciado tenho vindo a viver envolvido com as ideias sobre a consciência. O que me despoletou ou forçou esse interesse foi a aproximação dos teóricos ou dos escritos mais recentes de divulgação e especulação sobre Mecânica Quântica. Talvez esse mundo, essa ciência, que dá origem a uma tecnologia que suporta este espantoso mundo merecesse mais atenção mesmo sendo tão estranha.  Sempre me interessei em saber porque o são as coisas como julgo que são. A pintura, um quadro ou uma tendência na pintura tem variado de interesse para mim de forma contínua. Costuma dizer-se – eu não tinha consciência disso. Quer dizer que não via isso, nem pensava isso sobre a “coisa”. E que consciência posso dizer que tenho hoje disso? A coisa pode mesmo ser uma ideia, como Deus, mas aí nunca se vê a “coisa”. Falo por isso de coisas que se vêm e ouvem, etc.. Para os físicos quânticos, não acompanhados pelos físicos clássicos, a consciência da observação faz parte do que chamam o “segredo de família”, que trata do fato, indiscutível para eles, de que a realidade das partículas básicas, eletrões, protões, etc., é afetada pela observação, isto é, pela consciência de quem observa. É que nesse mundo em que não vemos diretamente as “coisas”, mas só através de aparelhos de medida, eles nos revelam que elas não se comportam como as coisas macro, explicadas pela fisica clássica. Não estou autorizado por ignorância e incompetência a falar mais do mistério.  Dizem, sem essa consciência do observador não há fenómeno. Isto para um artista é só ambiente poético e concetual. Não percebo nada. Mas aprendi coisas muitos estimulantes com a aproximação às teorias e aos fenómenos descritos.

2.1 – Para mim, que prezo muito o inconsciente, não tenho dúvida que ele inventou a consciência para que pudéssemos ter conhecimento da sua existência. Ele não foi bensucedido com os outros seres, mesmo os mamíferos superiores, mas parece que foi bensucedido com o homem. Nossa tarefa humana, desde sempre filosófica, foi saber o que é a consciência de si, que é aquilo que permite fazê-lo, o que é uma maçada. Não sei mesmo se a consciência não é uma ilusão. Quer dizer, aquilo que eu considero ser a realidade, que me é estranha, e mesmo a minha noção de mim-mesmo que possa existir para além daquilo que a minha mente é capaz de ordenar. Quando vejo uma pintura eu estou perante um conjunto de estímulos que se deixam manipular por aquilo que eu “quero” que eles sejam. Quero ver o que me interessa, apoia, confirma e fujo das imagens que contrariam ou criam crise acerca disso. Há dias um jovem que esteve duas semanas em coma depois de um acidente, disse que não se lembra de nada antes do choque. Não tinha consciência do que lhe tinha acontecido. Nós dizemos – perdeu a consciência.  Mas o corpo dele continuou a manter as funções básicas e mesmo o cérebro. A mente parou e recomeçou. Os reducionistas não vêm grande crise ou perplexidade. Mas esta consciência não é aquela que vamos considerar. Ter consciência é sentir o prazer; sentir o corpo e pensar que o estou a sentir com o que vejo e ouço. Que sou eu entre os demais que partilham essa consciência. Que mais quero ter, Equilátero?


1.2 –  A consciência que é o termo usado para nos referirmos à possibilidade e capacidade de dizer o que estou a dizer e de saber que outros o fazem também. Nunca foi a mesma desde que surgiu, não se sabe como, e mesmo hoje é muito diferente nas idades do ser humano e entre eles. Talvez vir a conhecer o que é a consciência seja uma impossibilidade ontológica ou epistemológica – o que exerce o conhecimento não pode sair de si para se ver. Talvez possa ser a IA – Inteligencia Artificial – que nos venha dizer à nossa consciência o que é que ela é. Mas ela continuará a desenvolver-se por si. Mais do que um “corpo” parece ser um processo, uma nuvem que se move anda. A consciência humana não pode conhecer-se a si própria. O ser está impedido de sair de si e de se olhar como fosse estranho, ou exterior, a si. Assim, admitir que venhamos a conhecer o que é a consciência é tão interessante como saber se Deus existe. Saber que penso e que logo existo é uma formulação filosófica conhecida e conhecer-se a si mesmo é o desígnio de várias filosofias, teosofias, religiões ou práticas espirituais. O que nos rodeia, seja ínfimo ou vasto, é infinitamente mais vasto do que aquilo que podemos ter consciência. Quantos ignoram a nuvem singular que lá no alto, pela luz do sol, que é por si “criada”; quantos olham demoradamente o percurso irrequieto da formiga: quantos olham cuidadosamente a face do velho, em frente, no Metro?. Ter consciência parece depender do observar. Só têmos consciência do que observamos. Não chega estar em contexto. Seja a ver uma pintura, um filme, um edifício ou ouvir uma canção. Ser consciente exige participação. Alguns acham que só há religiosidade com participação mística, que não é propriamente consciência, embora seja vivência.


2.2 –  Há quem pense que a consciência é o Universo. No Cosmos surgido do Big Bang a possibilidade ou probabilidade de existir o ser, mais ou menos parecido connosco, possuidor de consciência, é de 1 seguido de 23 zeros. Logo será de pensar que o universo se é consciente de si não lhe chega ser e quer que outros sejam conscientes que ele existe. Porque não admitir que ele, consciência suprema, tenha decidido que neste particular plano se pudesse desenvolver uma possibilidade de surgir essa consciência.  Será que o Universo nesta altura tem ânsias que o homem cientista vá, enfim, descobrir como tudo começou inquestionavelmente. Isto é, atingir a consciência absoluta de si e do cosmos? Sabes, Equilátero, por vezes, aproximo-me daqueles que consideram que o homem é o centro do universo. Para alguns o Homem criou Deus e, daí, não custa a admitir que criou o Universo. Se as coisas são o que são, como as vemos, e se tivessem seguido outras improbabilidades, ou possibilidades, nós não existiriamos para o observar e consciencializar. Uma pintura só existe se houver quem a consciencialize intensamente. Se não dissipa-se ou nem sequer chega a ser. A visão ou conceção antrópica parte do pressuposto de que o mundo, o universo, foi feito à imagem e necessidade do homem. Com a desgraçada utilização que este ser faz do planeta custa a crer que seja consciente de si. De fato, se o homem desaparecer vai ser uma maçada para o Universo. Ninguém mais o vai apreciar, já não digo o planeta, que mesmo deixado no mais miserável estado só vai ser reconhecido por seres que resistam à destruição, mas sem consciência. Isto parece um pouco tolo, Equilátero, mas há consciências a mexer por aqui.


1.2            – David Chalmers, filósofo e físico, que pode ser seguido no Youtube, considera, há anos, que compreender ou explicar a consciência implica resolver o que chama o problema difícil. Os problemas fáceis que a compreensão da Consciência levanta são aqueles se explicam através das medidas, dos efeitos de estímulos nos neurónios e células cerebrais. Eles interagem e se correlacionam para nos permitir viver como todos os outros animais. Temos avançado muito nesse conhecimento e explicação. Mas o que ele chama, o problema difícil é compreender como é que surge e para que surge a subjetividade. Como surge e para que serve o livre arbítrio? A arte? A filosofia? As coisas que não servem para nada mas que são decisivas para ser-se humano. Berkeley, um idealista radical considerava que ser é ser percebido, observado, o que quererá dizer que o que existe é criado pela observação e ser conscencializado. Uma pedra só existe se alguém a reconhecer e ver, é verdade. Escaleno, a nossa consciência tem uma condição civilizacional natural ou ecológica que orientou a vida dos humanos desde sempre. Sabiamos e tinhamos consciência de que o que nos rodeava era imutável e se iria manter para sempre, até ao fim dos tempos. Mas hoje a nossa consciência tem uma condição civilizacional artificial ou cientificotécnica que nos diz que tudo o que é natural desaparecerá e será substituído pelo novo artificial, ou pelo nada. Assim visto e pensado, todo o mundo é criado pela nossa observação e desaparecerá connosco. O físico Casimir, depois de descobrir o positron dizia que parece, por vezes, que as teorias não são a descrição da realidade quase inacessível, mas a realidade é o resultado da teoria. Os velhos gregos solipsistas já tinham encontrado essa ideia. 


2.3 – “Mas enfim há uma diferença. /Se a flor flore sem querer, /sem querer a gente pensa. /O que nela é florescer / Em nós é ter consciência.” F. Pessoa, 1931.  Equilátero, a consciência tem a ver com racionalidade, embora Pessoa não o afirme.  Mas será a nossa vida, no dia a dia, dominada pela racionalidade? É evidente que não. Só em raros e curtos momentos a ligação racionalidade/consciência é plena. Então podemos estar conscientes sem estar a racionalizar ou a compreender os dados dum certo momento ou ação. Isto, por ex., é muito importante nos processos da pintura. Há artistas que dizem que a arte é dominada pelo inconsciente e os cientistas dizem que é a racionalidade (consciência) que domina os seus processos, embora induzidos pela intuição; o eu é irracional. É evidente que todo o ato criativo é dominado pela intuição. É uma função mental irracional, como o é a perceção. Não podemos dominar a sua ação. Mas só atuamos criativamente a partir de um património de saberes e de dados. Ele se constrói basicamente através de processos racionais. Pensa-se que em arte se trata das técnicas. Ensina-se técnica porque pode ser racionalizada. A aprendizagem dum método é essencial; exige muita racionalidade, conhecimento sistemático, analítico e crítico.  O mesmo se verifica com conceitos, como composição e com conceitos expressivos. A consciência é diferenciante. Quando comemos tripas podemos fazê-lo quase sem dar por isso, sabendo por hábito que são boas, ao que sabem e como acabam. Mas se tomarmos em consideração e atentamente (diferenciação) cada garfada veremos que cada uma delas nos provoca efeitos diversos pelos condimentos associados. Estaremos aí em elevado grau de consciência, Equilátero?


1.4 – As emoções universais, receio, fúria, tristeza, nojo, felicidade e surpresa, não são conscientes, são realidades mentais que muitos animais experimentam e usam na sua vida de forma decisiva, não só o ser humano. Repare-se que só uma é claramente positiva, uma surpresa pode ser má, e as outras são todas perniciosas. Por outro lado, penso como alguns, que os sentimentos são uma construção da consciência e nos integram na ética que é uma construção da consciência humana, diferente da moral que é inata e está ligada às emoções básicas que nos defendem, ajudam e protegem. A emoção estética, embora não seja considerada pelos teóricos, é determinante para a maioria das escolhas que fazemos sobre o meio. As emoções surgem através do corpo e dos sentidos e estabelecem no cérebro por processos muito complexos, sobre as quais já há muitos estudos.  Mas estudar o que se passa nos neurónios não tem a ver com o conteúdo das emoções que é a única coisa que interessa ao ser mas nem sei se interessa saber como. A nossa experiência artística é sempre iniciada por essa adesão emocional estética. Depois outros níveis da exigência mental ocupam o seu lugar na nossa experiência e gozo do mundo e da nossa circunstância. A probabilidade é aquilo que a consciência mais gosta de tratar de assegurar. Mas não é muito criativo, excitante, prometedor. A possibilidade é muito mais atrativa, por ser imprevista, insegura e inquietante. Jogos e lotarias estão aí em força. A consciência também aprecia mais o princípio, a norma, a regra, o previsto do que a circunstância, o acaso, o inesperado. Mas todas essas realidades fenoménicas ou ontológicas não se contradizem. São a própria vida e a origem ou fim do espírito.


2.4 – Há quem ache que a consciência não é uma pirâmide, mas sim um labirinto. Também posso achar que é uma esfera. Começou por ser uma esfera muito pequena, com uma superfície pequena e um interior muito denso. Foi crescendo e acima de tudo cresceu a superfície, que é a verdadeira consciência, pois o que fica dentro de esfera é o inconsciente, o não conhecível. Na superfície da esfera não há orientação preferencial nem pontos bons e maus. Há possibilidades de relação. Dado o espaço esférico, quando vemos uma zona estamos impedidos de ver outras. Isso acontece, julgo eu, na experiência que temos dos inúmeros atos conscientes e ideias que outros não consideram aceitáveis. Não sabemos bem o tamanho dessa esfera nem se irá sempre crescer e como crescerá. Acho que vai crescer sempre, pois é a nossa condição humana vital que a fez aparecer, não digo criar. Nenhuma máquina será consciente pois ela não é capaz, por natureza não vital, de fazer surgir uma esfera assim. Para os budistas ancestrais, como Hui Ming Ging, que Jung estuda na introdução ao Segredo da Flor de Ouro, a proteção da unidade da consciência, contra as permanentes fragmentações provocadas pelos “sistemas autónomos” que constituem o inconsciente, é o mais importante. Para que isso resulte é preciso que o intelecto não pense que domina a mente e que a estrutura fundamental do inconsciente não seja afetada pelas circunstâncias do consciente. Daí, a etapa, O centro no meio das circunstâncias, nas quatro etapas da meditação.


1.5 – Quem pinta deve ter consciência do que está a pintar, do que é a sua pintura, e o que são as suas obras para si e para os outros. Mas que quer dizer isto, Escaleno? Será possível ter consciência do efeito que uma pintura que fiz tem sobre um observador dela?  Que consciência interessa ao pintor? A consciência do que sou como pintor depende das referências que tenho do que é ser pintor e de como posso ter êxito. O êxito é um dos aspetos mais curiosos, não só da consciência. E o que é? O êxito para os animais, que não são conscientes, é realizar instintivamente o projeto de vida da espécie. Se as condições naturais mudam é preciso mudar o corpo para sobreviver. Aqui a parte do corpo que decide é o cérebro. Um pintor tem êxito na disciplina e no contexto que lhe é favorável, não no dos outros. A disciplina e contexto dos outros pode ser o seu principal adversário mesmo em termos de sobrevivência das suas obras. Mas tem consciência do que está a fazer? Picasso em Paris, em 1907, não o poderia fazer noutro sítio, que tipo de consciência tinha do que poderia pintar tudo diferente? Sabemos que queria, acima de tudo, ser conhecido, estar à frente dos outros. E Mondrian em 1920, e Rothko, em 1950, e Bacon, em 56, em Londres? Tenho consciência, isto é, sou capaz de estabelecer nexos entre ideias que agregam certas possibilidades de compreender o sentido de certas ações ou fatos. Mas tudo isso são imprecisões ou potenciais possibilidades. Quando pinto, a consciência atua sobre a escolha entre sempre inúmeras possibilidades. Ao nos encerrarmos numa temática, num dispositivo técnico, num universo icónico, numa poética, numa modalidade formal o que estou é a tentar evitar que a consciência se dissipe. Paul Valéry, um inteletual francês que viveu nos anos 30, direta e intensamente, a mudança de paradigma que o modernismo protagonizou, dizia, “a arte moderna tende a explorar quase exclusivamente a sensibilidade sensorial a expensas da sensibilidade geral ou afetiva e as nossas faculdades de construção e adição de durações e transformações do nosso espírito”, (…) “ o que chamo Grande Arte é simplesmente uma arte que exige que nela se empreguem todas as faculdades de um homem e cujas obras são tais que todas as faculdades de outro se vêm requeridas e compreendidas”. Um grande passo para uma consciência mais plena.


2.5 – A consciência do pintor como é? Por vezes tenho a impressão, ou a certeza, que é baixa e raramente alta, isto é, muito inconsciente. No músico compositor é alta como nalguns escritores e ao contrário, nos bailarinos. A que se deve esta impressão ou estas certezas, já que ter certeza é assumir a consciência clara sobre a realidade, mesmo que isso seja uma ilusão. As artes populares são menos conscientes pois reproduzem modelos consagrados e convencionais ou comuns. O que é comum não exige muita consciência. Erudição quer dizer consciência, pois é uma racionalização vasta e correlativa de realidades afins. Consciência do seu lugar no conjunto com os outros. É o que faz da arte erudita a sua razão de ser para a comunidade humana. A propósito das palavras de Valéry, diziam nos USA, nos anos1950, os sociólogos da comunicação, que a Alta Cultura implicava a mais elevada consciência da complexidade da expressão e da comunicação, ausente parcialmente na Média Cultura e reduzida na Baixa Cultura. O politicamente correto não deixou a ideia vingar. O que eu pinto espera ter um lugar entre os outros. Não interessa se vai ter esse, outro ou nenhum. Mas se tenho consciência do que pinto, sei isso. Ter consciência do que pode significar para o outro e as outras obras. O nosso público de eleição, de primeira linha, são os nossos parceiros de ofício, os pintores – embora aceite que são também os nossos maiores detratores. Mas é aí que reside a consciência mais elaborada. Nunca sabemos que a consciência que temos é uma consciência dos outros. Sabemos muitas vezes que não é. Ter consciência como pintor, foi coisa que o modernismo nas vertentes dadaístas, surrealistas, expressionistas, e mesmo concetualistas, veio dissipar. Deu espaço ao inconsciente e à subjetividade do individuo que recusa encarar-se como parte de um todo e como atuando numa disciplina ou ação específica. Para Poussin, pintar era ter uma vasta e profunda consciência de si e do mundo e da disciplina. Equilátero, estou consciente de que pinto quando começam a aparecer essas maiores ou menores porções de matéria liquida? Ou quando elas surgem e se integram numa entidade concetual e existencial que sou eu, a disciplina, com os outros?

JoaquimPintoVieira Jan2018





ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

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Esquírola cento e setenta e três

A crítica das artes plásticas quando existia era má e boa. Como a das outras artes. Como desapareceu, e se voltar a existir, como gostaríamos que gerisse ou dominasse essas forças que a puxam para o mal e para o bem? Ela serve para evidenciar, esclarecer, explicar a diferença como condição da cultura. Dizer o que lhe parece ser bom e mau, para além do que é relativo, pois, o mau existe e o bom também e não podem andar por aí à solta. Queremos um juízo sustentado no conhecimento e num critério que se considere forte, isto é, útil para as nossas consciências. A cultura que interessa ao grupo social não é aquela que explica a arte pelas obras dos autores mas aquela que explica como a obra de diferentes autores, de valores diferentes, concorrem para a existência de uma tendência artística/espiritual. O realismo é mais importante que um grande autor realista. Se não cultivarmos o realismo nunca compreenderemos e fruiremos a sua obra. A crítica é de fato uma consciência iluminada, o que de melhor o inteleto e o espírito humano podem fazer. Tem ela que circular por esses territórios da mente humana onde o irracional e o racional se cruzam e ser capaz de se aguentar quando tudo parece confuso e sem sentido. Mas o juízo é sempre o encontro do sentido. Robert Hughes, que eu apreciava como o maior, considerava, como podemos ver no youtube, Wharol, um artista sem grande obra. Ele não encontrava na obra essas virtudes que encontrava em muitos outros artistas contemporâneos. Mas porque considera o sistema da arte contemporânea Wharol uma peça chave para aceder ao cultivo da contemporeaneidade artística? É porque ela se define por fórmulas que são cultivados por uma rede de interesses, hoje universal, e que nos anos 60 era americana, depois nos 80 europeia. Como pode funcionar assim uma crítica de arte. Funcionar é ter uma função, um efeito e uma consequência.  Então a crítica, se voltar a existir, tem que ser uma coisa local, resultado do que se chamará, sempre, cultura emanente.  Local como afirmação e universal como conhecimento. Separada, por condição essencial, do universal que é uma trampa.




Esquírola cento e setenta e dois


A cultura artística, a cultura do Desenho é o que pode dar sentido a um desenhador. É a única razão para viver desenhando, que será o que mais gosta de fazer. Esse sentido resulta da interligação entre um passado e um presente, que sempre foge, e um futuro desejado que se avizinha. Essa interligação é feita entre os que vivem do desenho. Essa cultura pode ser universal mas a que me interessa, como vida, é a do meu grupo social afim. Como vida, porque essa é condição espacial e psicológica e social que faz a existência em concreto. Hoje haverá em Portugal mais de duzentos docentes a lecionar no ensino superior o Desenho. Muitos deles no Porto e em Lisboa com vivências mais próximas. Mas temos noticias sobre essa condição ou fato? A cultura é, pois, a vivência intensa, vital e imperativa da existência do desenho. A cultura democrática é consciente, mas pode ser inconsciente. Para o ser tem de se basear no cultivo da diferença, da divergência e da critica. Só assim é consciente de si. Quis crer há dez anos, com o advento da imposição da dita, imprecisamente, investigação, que iríamos assistir ao aparecimento de um clima propício a uma genuína expressão cultural. Mas fui sendo desenganado. Sei por experiência própria no contato com algumas instituições que o que manda é o sistema e a carreira. Não é a sobrevivência, já não peço tanto como glória, do Desenho que faz a vida desses mestres e doutorados. Onde podemos encontrar os conteúdos, as obras, os debates, as ações, as monografias, as recenções, as críticas e com que critério fazem essa interligação ou correlação. Há alguns anos assistimos a algumas iniciativas, mas não tinham consistência disciplinar e expressiva. As Faculdade de Belas Artes estão na primeira linha do serviço público desse conhecimento e saber. O que podemos e devíamos esperar delas?! Que consciência têm os seus membros desse dever?


PINDUAS/PINDOIS   Pinturas em duas faces e dois tempos
Projeto de pintura em pequena dimensão, em objetos ou superfícies anexas ou contíguas. Como as superfícies ou planos da pintura e da imagem são normalmente opostas quando de vê uma delas não se vê a outra. As superfícies podem ser em número superior e dar origem a situações de desenvolvimento temático ou semântico mais complexo. A exploração da condicionante temporal da apreensão e observação das imagens é o vetor mais importante do projeto pois deve permitir criar inusitadas situações expressivas.
Os objetos são em madeira de diversas árvores e as superfícies são preparadas com colas, tecidos e papeis.  São pintadas em acrílico, esmalte sintético e óleo de água. Também se utilizam pigmentos diversos, purpurinas e folha de ouro.
As dimensões e formatos variam com o tipo de cortes nos troncos das árvores. O clip
presente nas imagens dá a sua dimensão.


















partilhado


serenidade
















desacerto
















  ......................................................................... 







                                                          




encontro 1
























  triângulo improvável 1

                                                            














 triângulo improvável 2

                                                      




















. iPADs dos SAPOS

   Algumas  imagens pertencentes a um conjunto mais vasto
  glosando o sapo como humano






























DESENHOS SEM PENSAR
mostrados e apresentados sistemáticamente no blog drawingdibujodesenho.
Aqui alguns desenhos recentes entre os realizados diariamente.


04.01.18
















 
15.12.17




















 
29.11.17



















 
14.11.17




















AGUARELAS
 a partir dos desenhos sem pensar 


 
intromissão



















possessão


















atração























O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio.

(os textos já publicados podem ser vistos, MAIS Á FRENTE e na Pág.
PEQUENOS TEXTOS no Blog)





 BALTHUS




















Balthazar de Rola, dito Balthus, 1908 -2001, foi um pintor francês que viveu todo o processo artístico do século XX afastado do método, da ideologia, da estética e por isso do gosto dominante, caraterizador da modernidade nos diversas vertentes da sua ação. O quadro acima, de 1938, que está em exposto no MET de New York, foi objeto, há dias, de uma ação de censura pública através de um abaixo assinado exigindo a sua retirada.  Os subscritores defensores de uma moralidade hoje transversal a atos como os de pedofilia, exploração sexual de menores e assédio sexual consideravam que a obra exprimia e cultivava esses valores negativos ou perversões. Teria que se queimar ou fechar a sete chaves a maioria das obras de Baltus realizadas, desde os anos 30 aos anos 60, que tratam a figura da jovem mulher, da adolescente, da teenager que na Idade Média tinha a idade para se casar. Este fato de moralismo primário, pois satisfaz angustias das pessoas individualmente, só a elas dizem assim respeito. Mas elas julgam que dizem respeito a todos. Para Balthus o tema da adolescência ligado à inocência, à puberdade, à pureza parecia apresentar-se mais intrigante e complexo ou contraditório. Além dos gatos quase sempre presentes (o inconsciente coletivo presente através do animal) as figuras uma vezes tratadas esteticamente com realismo outras vezes mais esquemáticas ou estilizadas surgem como alguém que pode ser vistas sem que elas saibam que o estão a ser. Este quadro, Thérèse rêvant, mostra-nos uma figura numa pose intima e que estará a sonhar ou a pensar, com os olhos fechados, em quê? Nos trabalhos que tem que fazer para a escola? Para onde vai de férias? Que sapatos irá comprar de tarde com a mãe?  É esse o espaço do fruidor. É esse o conteúdo. É esse o aspeto da obra que mais a retém em nós. Se a figura nos olhasse, mais ou menos, com malícia o que nos deixava? Mas não posso deixar de falar na luz uma das mais importantes vertentes expressivas da pintura como representação. A luz poente, como em Hopper, tudo revela com melancolia, como em muitas outras obras de Balthus. Noutras nunca a luz foi vista e tratada com tanta subtileza e força expressiva nesse momento em que quase não é.







ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

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Esquírola cento e setenta e um


A inteligência desapareceu do centro da pintura há cerca de 150 anos.  Continuam a servi-la, ou a servir-se dela, pintores cujo centro da sua vida também é a inteligência, embora não esteja sozinha. Há quem defenda que hoje devemos considerar que há cerca de nove inteligências. A inteligência sempre foi para mim uma competência cognitiva entre outras competências da mente que são tão importantes para a vida física e mental do homem de forma sempre indestrinçável. É a capacidade de utilizar muitos dados quer analítica quer sinteticamente. É o resultado da extrema curiosidade e do espanto perante o mundo. Dados são acima de tudo consciências. Quando tenho um dado eu sirvo-me dele porque ele me faz compreender um fato, uma obra, uma ação, um ser: racionalizar.  Mas todo o dado pode servir para sentir, intuir e percecionar. A inteligência não está presente na génese da maioria das pinturas nos últimos cem anos. Há um célebre pintor que dizia que não procurava; encontrava. A inteligência, como a entendo, não se atrevia a surgir antes; só depois. Mas a nova obra devia muito ao que dela se fez. Uma pintura era, normalmente mesmo nos temas mais restritos como o retrato e a natureza morta, uma obra com incidências em aspetos muito diversos das ideias, dos valores, da estética e do social. Daí que para se poder vingar, ser pintor, teria que ser, acima de tudo, inteligente. A sensibilidade, a expressão, eram secundárias. Deixar de se ser considerado, no Renascimento em Itália, um artesão, para se ser um artista, foi uma conquista na dimensão profissional, ou deontológica como Alberti nos deixou expresso. Em Portugal, só a partir de Vieira Lusitano, no Séc. XVIII, esse estatuto foi conferido pelo Rei. Alguém espera que este quadro se altere? E porquê?




Esquírola cento e setenta


Fui há dias a Santo Tirso ver o novo edifício de apoio ao Museu ao ar livre de Escultura. Já conheço desde o seu início o museu que o Alberto Carneiro criou e desenvolveu nestes 20 anos. Chegamos a falar dele. Sempre me pareceu, com evidência concetual e até ética e deontológica que a quase totalidade das peças não são esculturas. A disciplinaridade foi destruída  pelo modernismo e consolidada pelo pós. A disciplina mata a criatividade  e impede o modernismo. Eu sou um não moderno e por isso vejo isso mal. Adoro a disciplinaridade. Tal como o judoca não duvida do que isso seja quando vê um jogo de ténis, embora ambos sejam desporto. A maioria das peças são construções artísticas modalidade criada pelo construtivismo russo nos anos 10 do século passado no contexto da abstração nascente, do que que quase todas as peças são esteticamente seguidoras.  A escultura – retirar ou modelar a matéria– é esse o verbo e disciplina que exige um corpo e uma cabeça comuns. Se a obra surge feita por vários e por tecnologias não humanas, é outro o verbo. O verbo de todas as tecnologias mais ou menos projetuais. Sinto necessidade de crítica. Sobre o projeto de Álvaro Siza /Souto Moura  e sobre o Museu não encontrei na NET qualquer crítica. Posso ter procurado mal, mas não é coisa que se encontre hoje sobre qualquer arte. Não se pensa o que se sente, se se sente. E eu vou criticar.  Poucas obras, Ângelo de Sousa, Carlos Barreira pela elegância e subtileza, Cabrita Reis pelo provocatório sem poética me tocaram e deixaram presença. A escultura abstrata com muita tradição e qualidade nos países do Norte Europeu, donde é nascida, deixou-me muitas vezes assombrado, inquieto ou “em sentido”. Está ali algo que eu não vejo, mas sinto. Mas aqui não e tenho mesmo nesta altura dificuldade em me lembrar delas ou do que me tenham deixado na consciência. Talvez esteja no inconsciente. Mas ao chegar ao edifício do Convento, como fiz de viatura ou a pé tantas vezes, vindo de nascente, subindo a curva lassa para a direita, deixei de ver aquela fachada que cheguei a desenhar e a fotografar e que surgia desde longe, anunciando-se. Deixei de ver surgir, como joia, aparição, testemunho, devaneio aquela pequena fachada, do topo da ala, em que a composição, as tipologias e as iconografias eram tão elegantes, delicadas, proporcionadas, certas. Era Santo Tirso. O que vi foi uma parede cega branca que irrompia até ao passeio que só depois de passada me permitia ver a maravilha. Habituei-me a ouvir dizer, na FAUP, que o respeito do sítio é a marca da arquitetura que deu dois Pritzker. Não respeitar o alinhamento, que nasce lá longe, que se definiu e respeitou em 300 anos só se explica pela doutrina do “e porque não?”. O meu coração não me deixou calar a tristeza sem remédio ou reparo. Continuará.





ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

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Esquírola cento e sessenta e nove

Depois de ouvir umas áreas da Coroação de Popeia, ou umas cenas de Macbeth, ou o Nascimento de Vénus e abrir um canal de TV em que se encontra um programa sobre arte contemporânea não podemos deixar de ficar estupefatos. Claro que esses antigos é que são o motivo da estupefação, pois tinham com certeza a cabeça cheia de ideias, de valores de sentimentos e de necessidades poéticas e morais que já não se utilizam, não servem para nada. O que sentimos hoje é suficiente; o que pensamos hoje é fascinante; o que gozamos hoje é encantador. Por esses CACs de todo o mundo civilizado, dos desertos arábicos, aos trópicos, às avenidas de arranha céus, das estepes aos glaciares se tem essa vida mental, tão rica de efeitos sobre as nossas sequiosas mentes, que encontram lenitivos, motivações, estremecimentos e arrepios.  O artista/sujeito é a sua medida e fim. Anda por aí essa da pósverdade que é, de fato, uma variante desse processo que a NET veio dar mais corpo; as coisas são o que queremos que pareçam, que nos convêm que pareçam. A obra do artista/sujeito é uma ocorrência que não precisa de se demarcar, pois ela é um absoluto, um fait accompli. Por outro lado a estética da imagem é dominada pela denotação, pelo ícone, pela tautologia que a Pop veio consagrar. Como terão de nós inveja e ciúme os nossos vindouros que tenham a sorte, talvez imerecida, de nos seguirem através das obras que lhes deixamos, se sobrevirem.








Esquírola cento e sessenta e oito

Lewis Carol pôs na boca de Alice que ” não se pode acreditar no impossível”. A Rainha rebateu dizendo, “ que antes de tomar o pequeno almoço pensava em mais de cinco”. Eu acho que ser artista é pensar em coisas impossíveis, logo nem sequer colocar a questão de se poder acreditar ou pensar nisso. A arte assenta na possibilidade e nada na probabilidade.  Como gosto mais de falar, ver, e pensar em desenho do que em arte, nem sei o que seria de mim se tivesse algum dia de não acreditar que vai “sair desenho”. Desenhos podem ser só sobre coisas impossíveis e até podem ser sobre coisas possíveis. Como é que se pode admitir que há um limite para o possível? Consideram as pessoas que daqui por uns anitos já não é possível fazer desenhos diferentes dos já feitos? Temos que acreditar que não se pode acreditar no impossível?  Será possível acreditar que o que é possível já está definido e à espera que a gente o encontre. E que depois dele só ficam as coisas que são impossíveis? Ou depois das possíveis, logo ali ao lado, não há nada?!  Assim com certa retórica nos aproximamos dos limites da nossa consciência e ou no irritamos, azoamos, confundimos, exasperamos.  Ela é que nos diz se sim e se não. Mas não é ela que nos leva a poder tê-la dentro de nós ou ser nossa. Por isso podemos acreditar que está tudo ainda por vir! Saibamos ir apreendendo os “sinais”.


Esquírola cento e sessenta e sete

Há dias, numa sessão pública, o Professor Vítor Silva, colega, amigo e parceiro de debates de ideias e experiências, que são o que fazem a vida cultural, abordou o tema do enquadramento no desenho. Nunca segui Derrida, Deleuze et ses confrères.  Por vezes bate-me à porta David Hume, mas prefiro a necessidade mais do que a doutrina para me orientar, não digo construir. O enquadramento é para mim uma construção concetual de natureza geométrica – medida e número e suas poéticas – que define fronteiras e limites com configurações variadas, não forçosamente quadrangulares; podem ser circulares, por ex.. Usa-se para dar corpo às imagens gráficas, foto, cine. Mas na pintura e desenho, que são as disciplinas que o criaram e lhe deram corpo, ele surgiu tarde, como prática e conceito. Em Lascaux ignorava-se, os grafiteres não o usam. Os escultores e os designeres também não necessitam, pois a imagem do objeto vive solitária. A imagem coisa que existe na nossa mente, que mesmo sem ser solipsista, aceito que só lá existe, quando pode adquirir um corpo material procura-o. Mas só quem desenha e fotografa o pode cultivar. Já se enquadrava desde os egípcios, dentro da História, mas só com o Renascimento adquiriu condição estética e simbólica no mundo ocidental. Mas na China, desde tempos anteriores ao Séc. X, as imagens contínuas desenvolvidas em rolos horizontais e verticais conferiam ao enquadramento uma condição artística exponenciada. O enquadramento nas imagens que são representação exige controlo de formato, orientação e escala. Nas imagens que são abstração exige formato e orientação e pode mesmo ser ignorado. Certo informalismo a isso nos mostra. O que se joga essencialmente no enquadramento? O domínio das tensões, dos vetores e eixos, dos cheios e dos vazios; matérias básicas e muito gerais da Composição. Aí residem as necessárias necessidades dos que aprendem e ensinam o que é enquadramento. No real, que serve as imagens na representação, tudo se dispersa, move, solta, como nas imagens do sonho. Desenhamos para fazer a paragem desse vórtice que é a perceção do real. Se num retângulo de ouro, o supremo enquadramento para os Pitagóricos, ao alto, eu coloco um pequeno ponto preto junto ao canto superior esquerdo e se noutro retângulo idêntico, ao baixo, coloco o mesmo ponto no centro, tudo muda estética e simbolicamente. Tudo depende só do enquadramento que é campo de ação. O enquadramento é a condição básica da consciência do desenho como imagem/corpo. O que advém dessa condição é tão vasto e diverso que por mais que escrevesse longe estaria de tudo falar, mas que deve ser falado. Oh, Desenho!!






Esquírola cento e sessenta e seis



Os mestres da antropologia e sociologia já nos mostraram que numa sociedade os avanços, inovações e melhorias não têm origem no grupo, no povo, nas massas. Tem origem num único ser humano. Essa ideia ou intenção, que o atinge, só vinga se a ele se associarem mais um membro, dez, mil do grupo social. As ideias que vingam são sempre muito poucas. O grupo no seu todo é conservador, inseguro, defensivo, desconfiado. As inovações só vingam depois duma luta mais ou menos dura contra essas forças. Se assim não fosse já há muito que teríamos partido para outro planeta. A diferença entre direita e esquerda expressa-se aqui, para além de aspetos diversos noutros contextos, pelo fato de a direita valorizar o individuo, seu direito à diferença e à singularidade, ao risco e a esquerda pela valorização da solidariedade, da igualdade, da segurança e proteção. Não é nada de preocupante, pois nunca foi de outra forma. Quando desenhamos, e nos sentimos atingidos, estamo-nos sempre a aproximar dessa zona em que surge a singularidade que vai fazer a mudança. E ela surgirá sempre onde menos se espera. Mas pode surgir e fenecer. Coisa também pouco preocupante pois sempre aconteceu, e está sempre a acontecer, embora haja quem diga que o querer tem muita força.





O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio.

(os textos já publicados podem ser vistos, MAIS Á FRENTE e na Pág.
PEQUENOS TEXTOS no Blog)




ABEL SALAZAR





















Abel Salazar, 1889-1946 foi um destacado cientista clínico, inteletual e pintor. A sua formação artística foi autodidata. Foi perseguido pela ditadura na luta democrática e pela justiça social e obrigado a abandonar a sua vida académica na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Além de ter desenvolvido uma obra de desenho, gravura, cinzelagem e pintura de dimensão apreciável, desenvolveu uma reflexão teórica sobre a pintura e sobre outros temas, além dos científicos, que sustenta a particularidade da sua obra. Estava em dia com os avanções fundamentais da ciência no início do século XX, mas não estaria com o processo artístico a desenvolver-se na Europa e em particular em Paris. A sua obra teórica assim o revela em particular no longo estudo sobre a pintura de Pousão que muito admirava. Considerava-o um impressionista, e o maior pintor português. A sua figura interessa-me mesmo não concordando com ele. A sua teoria e capacidade de entender a pintura, o real e as ideias é muito proveitoso para compreender como uma pessoa informada, culta, esclarecida e exigente intelectualmente olha um fenómeno que cultiva e relativisa e mesmo absolutisa. Como podemos avaliar a consciência que tinha do que se estava a passar nos anos 30 e 40 na Europa na arte e em particular na pintura. Ele não ignorava o cubismo que considerava ser um neogiottismo, porque se centrava na teoria dos volumes, mas tinha da abstração uma visão curta e ignorava o surrealismo, por ex.. Duchamp era mais velho dois anos. Como a sua obra revela, e os textos clarificam, ele tinha da pintura a compreensão que se realizava pelo domínio dos elementos ou experiências diferentes da natureza e da perceção. Os elementos visuais e experimentais. Não é altura para explicitar, mas só referir. A obra acima reproduzida exprime e mostra as bases da sua pintura e desenho. O tema dominante; a mulher do povo ou da alta. O espaço público. A luz natural e um cromatismo tonal centrado nas cores quentes. A atitude ou modo do esboço com uma técnica centrada na mancha. O afastamento da linha, que ele acha com o volume, as bases do classicismo, em oposição ao modernismo que ele centra na luz e na cor.  São obras ao lado do tempo que corre mas que definem as margens dessa corrente. É bom tê-las em vista.  








DELACROIX
























Eugène Delacroix , 1798-1863,Paris, foi um dos mais destacados pintores  do romantismo em França e na Europa.  Beaudelaire considerava-o a expressão da modernidade no início do Séc. XIX, séc. onde essa ideia se aprofundou. Ele possuía imaginação e memória ou recordação,  as qualidades mais importantes para Beaudelaire.  Se lemos ou ouvimos um teórico da pós-pós-modernidade ficamos a saber que ontologicamente a arte é hoje uma coisa muito diferente do que era para Beaudelaire. Coitado dele e dos desvalorizados artistas de há duzentos anos. Quer dizer, aquelas palavras ou conceitos usados por Beaudelaire não servem hoje para nada. Ou seremos nós os coitados e a arte é uma particularidade histórica?! A Arte no final do Séc. XVIII era a pintura. As outras disciplinas esperavam o que daí saia. Todo o pensamento artístico tinha origem na pintura. Hoje não é assim. Porque me interessa mostrar esta tela, Cenas do massacre de Quio, deste Outro? Foi pintada quando tinha 27 anos para ser exposta no Salon. Só através do Salon (hoje as Bienais) se entrava no mundo da arte/ pintura.  O Tema é um dos elementos d e destaque e de ousadia e originalidade, embora ele considera-se que a originalidade não estava no tema. Ele trata um tema que tinha muita atualidade política na Europa e exprimia o conflito civilizacional mundo europeu/ mundo muçulmano, coisa que hoje se mantém.  A população da ilha grega de Quio foi quase toda massacrada pelo exército Turco.  A pintura dum tema singular na época, na história, é marcado pela condição de classe, como diria um leninista, e pela presença da nobreza francesa.  Delacroix já tinha conhecido  a Revolução e o seu espírito mas para o Salon e a boa sociedade parisiense quem sofre num massacre são os nobres que podem vir a ser feitos prisioneiros e resgatados. O povo já foi todo dizimado. Delacroix não é ainda moderno. Mas é muito romântico porque sente como um ser que tem a consciência de que é história em sim mesmo, já não como povo ou nação. Mas ainda está longe da dissociação do eu com o grupo. A pintura é muito melhor que o esboceto. Coisa que nem sempre acontece na obra de Delacroix, em que os esbocetos são atos plásticos modernos. Todo o seu programa cromático está presente: sépias, cinzas pretos; vermelhões e azuis contidos. A composição é a grande matéria da pintura porque transporta o significado na sua teia onde a conotação surge da complexidade das figuras, dos gestos, e dos objetos para além da iconografia e da cultura. É um quadro notável num tempo em que a pintura como representação começa a sofrer, não só pela fotografia a anunciar-se, um ataque enraivecido, invejoso e cínico que ainda hoje perdura. Mas se os museus de arte contemporânea são, como disse  o realizador sueco Ostlund, há dias, lugares onde se encontram acima de tudo obras absolutamente estúpidas, é porque o que lá se vê e se diz arte não tem nada a ver com isto. Num tempo em que se cumpre o destino iniciado com o romantismo, do modernismo da dissolução de tudo, voltar ao reencontro desse início é sempre estimulante. Talvez se veja o caminho perdido!











GERHARD HADERER




















Gerhard Haderer, 1951, Áustria, é um dos mais destacados caricaturistas da cultura artística germânica, pois a sua expressão e atuação é feita, tanto na Alemanha como na Áustria, nas principais publicações de magazines. Conheço as suas imagens há mais de 30 anos, semanalmente na revista STERN.  As imagens com mais força não são caricaturas das figuras políticas mas a caricatura da sociedade germânica, europeia e mundial das sociedades contemporâneas.  A caricatura é uma prática ou modalidade artística moderna. Só as sociedades capitalistas avançadas e liberais permitem esse sarcasmo, sátira ,critica, denúncia dos costumes dos valores e personalidades.  Muitas vezes se atribui à arte, às artes plásticas em particular, o papel de mudar o mundo de agir sobre a sociedade e o poder.  É isso que Haderer faz há dezenas de anos todos os dias. A sua estética é realista e por vezes fotográfica, interessado que está  que o impacto patético das situações tenha mais efeito e mais ridicularize. Humor e comicidade são os âmbitos poéticos. A composição da imagem é muito variada e utiliza com muita inventiva esquemas expressivos e comunicativos surpreendentes ou convencionas,  buscando a máxima eficácia comunicativa.  As imagens tem quase sempre o formato de 18x25 cm e ocupam toda a página do magazine, como o exemplo mostrado.  No Renascimento esta modalidade de desenho e pintura era desconhecida. Só no século XX e nas sociedades liberais e democráticas a crítica mordaz dos costumes, das classes ricas, do clero fez-se em, especial, com os cartonistas modernistas e os pintores expressionistas alemães em particular.  Hoje há em todos os países caricaturistas, cartonistas com muito impacto na vida das sociedades. Se outro Gerhard também germânico é considerado um grande artista dos nosso tempos podemos compreender como a arte é hoje em dia uma realidade muito mais complexa e indistinta ou pluricompreensível. Em Haderer o significado do artístico, é elementar, primário e direto; é assim o universo caricatural. Não há complexidade concetual, sentimental, poética, simbólica e estética.  Mas elas estão lá mesmo que levemente anunciadas.  Em Richter podem algumas não estar sequer anunciadas. Mas a diferença entre “as artes menores” e as “artes maiores” continua a ser uma evidência para um espírito exigente e curial,  ainda mais num tempo do politicamente correto.








ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

Muitas das anteriormente publicadas podem ser vistas na Página PEQUENOS TEXTOS NO BLOG



Esquírola cento e sessenta e seis



Os mestres da antropologia e sociologia já nos mostraram que numa sociedade os avanços, inovações e melhorias não têm origem no grupo, no povo, nas massas. Tem origem num único ser humano. Essa ideia ou intenção, que o atinge, só vinga se a ele se associarem mais um membro, dez, mil do grupo social. As ideias que vingam são sempre muito poucas. O grupo no seu todo é conservador, inseguro, defensivo, desconfiado. As inovações só vingam depois duma luta mais ou menos dura contra essas forças. Se assim não fosse já há muito que teríamos partido para outro planeta. A diferença entre direita e esquerda expressa-se aqui, para além de aspetos diversos noutros contextos, pelo fato de a direita valorizar o individuo, seu direito à diferença e à singularidade, ao risco e a esquerda pela valorização da solidariedade, da igualdade, da segurança e proteção. Não é nada de preocupante, pois nunca foi de outra forma. Quando desenhamos, e nos sentimos atingidos, estamo-nos sempre a aproximar dessa zona em que surge a singularidade que vai fazer a mudança. E ela surgirá sempre onde menos se espera. Mas pode surgir e fenecer. Coisa também pouco preocupante pois sempre aconteceu, e está sempre a acontecer, embora haja quem diga que o querer tem muita força.


Esquírola cento e sessenta e cinco

O branco é paralisante. Conhece-se bem o drama do artista em frente à tela branca, do poeta face à folha em branco. Olhar para uma parede branca pode tranquilizar mas tenderá a paralisar. Os neurólogos e psicólogos sabem porquê. Muitos de entre nós apreciam muito a parede branca, o manto branco, o automóvel branco. Não se trata de simbologia ou de sensação de pureza, de limpeza, de neutralidade, de ausência. Como nos automóveis, um carro branco há dois anos era do pior gosto, ou era carro de serviço, neutro e invisível. Hoje é elegante. Mas basta-me a experiência e é essa que tenho. Desde a paisagem da cidade sejam elas quais forem as cores dominantes, estas lhe conferem um caráter e por trás uma cultura e enfim valores. A Natureza raramente se serve do branco e quando o faz é muito violenta (lagoas salinas). Não há nada como pintar sobre uma superfície magenta ou verde musgo para começarem a bailar na nossa mente hipóteses de atuação de ação e de imagens emergentes. Nós sabemos que o branco é, enfim, a ausência de cor ou a junção de todas. E é o tudo ou nada. E assim, como esses estados, é paralisante. É necessário que a centelha divina nos toque ou que se rompa a nossa apatia e paralisação através da matéria, não da sua ausência. Uma indução que venha de fora de nós e que a cor suporta e permite. Esta é mais uma dessas questões de que tratará o que se considera ser a Estética. No essencial, trata-se de discutir os gostos, o que alguns julgam não se discutirem por serem subjetivos ou, dizem também, pessoais.


Esquírola cento e sessenta e quatro

Quais são os meios, os poderes, os mecanismos que criam a cultura artística. Se nos colocarmos nos inícios do que seria essa necessidade social, a que chamamos cultura artística, isto é, no Renascimento italiano, evitando ter que recuar até a Grécia, o que vemos? Um poder mecenático, não religioso que ostentava e valorizava imagens que remetiam para realidades religiosas, mitológicas, existências, morais, éticas e poéticas que escapavam aos ditames, exigências e usos dos valores do cristianismo dominante. Toda a baixa e alta idade média se encarregaram disso, à sua maneira, por necessidade e instituição. A cultura artística é laica pela natureza da sua teleonomia. Os senhores das cidades italianas viam nas artes plásticas a representação da sua grandeza, dos seus valores, desejos, sonhos, e poesias. Isso se passa nas letras e na música. O Renascimento tem uma ética não cristã essencialmente nascida das culturas greco-judaica- cristã. As academias nascentes sucedem às corporações medievais com o aparecimento e ascensão do artista. Não um artesão. Um inteletual e um artífice com projeto nascido em si. Daí com o nascimento do capitalismo se força a concorrência e o destino da cultura europeia. Nunca vista em qualquer tempo e lugar, como seria natural. A cultura artística desde essa época, na sua dimensão essencial que é a sociedade, afirma-se a assume-se com a imprensa e a reprodução ilimitada, embora diminuta. Hoje passados quinhentos anos existem apoios que começam em escolas universitárias, em museus, em centros de arte contemporânea, em feiras, congressos e encontros. A cultura apoia-se em disciplinas diversas como a história de arte, a sociologia, a comunicação e as tecnologias digitais de comunicação e difusão. A cultura artística está assim pujante, diversa, multifacetada, policêntrica ou em dissipação, desordenada, entrópica caótica. Há um mar, mas num oceano existe o bom e o mau, o que vai sobreviver e o que irá perecer, segundo critérios que ninguém pode prever ou conjeturar, mesmo para grupos restritos de zonas ou âmbitos culturais. Não há sentido e ordem senão aquela que a vida e a necessidade determinam. Sobreviverá o que for considerado necessário seja como utilidade seja como supra-utilidade.



Esquírola cento e sessenta e três

A ciência é o que faz a explicação ou interpretação do que acontece na matéria e na vida. A ciência baseia-se na indução ou dedução. A arte baseia-se na expressão e sensação. A ciência da arte não é a estética que é uma filosofia. Esta é uma das áreas da ciência da arte como o são a psicologia, a geometria, a tecnologia, a comunicação. Mas esta explicação não pode procurar justificar ou dar sentido ao lugar das coisas na nossa mente e no nosso espírito. Outras atividades mentais humanas o fazem. A arte procura dar sentido à existência sem explicar seja lá o que for. O sentido que se sente, não o que se explica. Não há nada a encontrar na arte que explique seja lá o que for. Da ciência surge a técnica que altera a nossa vida, desde sempre o fez, mais do que de qualquer outra atividade humana. A consciência do ser-se humano e do que é o mundo não advém da técnica. Mas sem os instrumentos que a técnica nos oferece, todos os dias com surpreendente novidade, a nossa capacidade de observação do mundo, da realidade como coisa concreta micro ou macro, não mudaria muito. Como não mudou em milhares de anos. Este vórtice da capacidade de observar está em nós, não na realidade. Cada vez mais o aumento da experiência percetiva e da observação que a ordena faz o ser humano mudar. Não sabemos como essa mudança ocorre e se permanece ou se dissipa na estrutura geral da mente e da organização cerebral. Só nos resta seguir, nessa insaciável necessidade de percecionar e para alguns, nem todos, e aparentemente poucos, o exercício dessa capacidade cuidadosa e empenhada de observar que é a Cultura. Aumentar a consciência.



esquírola cento e sessenta e dois

Talvez este seja mesmo o tempo para pensar em vez de agir. Neste domínio das artes plásticas tem-se agido e continua agir-se muito e a pensar muito pouco. A situação é boa? Estamos entusiasmados com o estado da arte? Há futuro para quem não está dentro? O Sistema é transparente ou é indefinido e obscuro? Alguma vez na história das artes estar dentro significou sentir-se mesmo muito fora! Nos anos1940 acreditava-se numa arte nova, (e homem novo) uma promessa de ligação de comprometimento, de partilha, de totalidade… Hoje alguém pode esconder que está tudo irremediavelmente separado, divorciado, descrente, desinteressado, desanimado, sem caminho para fazer com um fim em si. Acreditamos num sentido que a nossa obra se inscreve num quadro de vida, de história, e de futuro? O que nos move e segura é a necessidade e o interesse. Interesse tem por vezes uma conotação negativa e oportunista. Mas aqui quer dizer o que me interessa é o que me toca. O que me diz respeito e que por isso pertence e se inclui na necessidade dos outros e a todos pertence. O que a todos pertence é aquilo de que todos falam e todos entendem a fala. A necessidade não é uma imposição doutrinária ou apologética.  Ela só nasce da verdadeira vida. Quando falamos do que necessitamos e nos interessa só podemos ser, claros, explícitos e diretos, senão soçobramos. Mas hoje alguém entende o que dizem os artistas, quando falam?



esquírola cento e sessenta  e um

O ser humano já faz desenhos e pinturas há 50.0000 anos. Daqui por 1.000 anos já não fará?  Há quem ache que amanhã já não fará. O que pode justificar, explicar, ou suportar uma rutura na natureza da ação do ser, quando todos os outros seres, que Darwin também estudou, a mantêm criteriosamente e sem qualquer consciência? A consciência? Aquilo que a mente humana criada pelo seu corpo fez para se autodestruir? Mas se a probabilidade face ao avanço digital e robótico é de se deixar de fazer resta a possibilidade, que é sempre a demonstração que o que manda é ela e não a probabilidade. “A necessidade é o regulador mais eficaz da realidade”. Ambas mudam constantemente. O paradigma natural era (sempre foi) estável e imutável num tempo não humano; hoje o paradigma artificial –digital diz que tudo é mutável e que a realidade não tem a natureza e o homem como seu centro.  A possibilidade quântica é um fim em si mesma, sem que haja necessidade; o acaso desligado da vida e só ligado ao eletrão. As máquinas, auto geradoras de máquinas vão ser determinadas pela sua natureza antinatural. Não é uma questão de sentimentos e emoções. É de estômago e intestinos. É o comer que faz o homem pois ele é a interatividade essencial dos seres vivos e da vida – ser meio ambiente. As máquinas (robôs) não comem nem cagam. E isso é-lhes fatal. Por isso penso sempre quando como um arroz de tomate como ele me vai qualificar as possibilidades que o novo ato de desenhar vai fazer surgir.



esquírola cento e sessenta

Voltei há minutos do CAC-Serralves, aqui ao lado, onde por vezes vou. E de novo esse sentimento de indiferença, de fastio, mesmo de tédio me assalta. Mas não serão assaltadas também as pessoas que circulam, sem eira nem beira, pelas salas?  Encontrar uma pessoa que dedique mais do que 5 segundos a ver uma obra é raro. Não vêm nada. Só vêm o que mexe e faz barulho. Verifico com atenção particular, confesso já com maldade, que a maioria dos visitantes, a quase totalidade, não liga nada às obras expostas da maioria das exposições recentes. Passam. Por vezes vão ler a ficha, e pronto, lá vão. Não estará algo muito mal neste mundo que deus não criou? Os homens, já sabemos, são capazes do pior e do melhor pois só eles o podem fazer. Mas convém escolher da curta vida o pouco que podemos usufruir da vasta arte. E é, e será sempre, tão pouco o tempo, que se exige critério. O mundo da arte contemporânea é o sucedâneo de um logro, um dos maiores da cultura de raiz europeia desde Rousseau. Até onde? Falamos de critério acerca de quê? Que os artistas, depois da vitória histórica do anarquismo nos terrenos das culturas artísticas e dos costumes, possam fazer para si tudo o que desejarem sem que Deus, que desapareceu, os persiga, já todos experimentamos e cultivamos, mesmo. Aí o critério se esvai. Mas a socialização dessa produção que sai da esfera, sem critério, de cada um tem de seguir uma ordem. Quem detém esse poder hoje? Quem domina a rede dos CACs? Porque se gastam fortunas a fazer instalações, pinturas e esculturas e impressões digitais gigantescas (a que chamam pinturas) que ninguém poderá dominar e mesmo usufruir com um mínimo de constância discernimento, aproximação e usufruto. Parece que tudo é mandado por uma mão orwelliana.

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O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio.

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EDUARDO LOURENÇO


















Eduardo Lourenço, 1923, Almeida, é uma das mais destacadas personalidades da cultura portuguesa da segunda metade do Séc. XX, e até aos nossos dias, pois ainda cá anda. Esta dupla fotografia de quando teria 60 e 30 anos, presumo, dá-nos a efigie do homem. Não nos ajudará muito, mas toca-nos. Ando a ler a edição dos seus textos sobre Pintura. Da pintura, Gradiva, Lisboa 2017. Conhecia por jornal, revista e livro muita da sua obra de ensaísta, crítico, pensador, sobre a nossa condição nacional, europeia  e humana em geral e sobra a cultura das artes  e das letras. Sempre foi, como se costuma dizer, a pedra que cai no lago parado e mesmo quando este mexe as ondas dele iam para outro lado. Esse lado era normalmente o da lucidez, da inteligência viva, do fundamento no saber, do conhecimento da história, e das disciplinas que abordava, da extrema atenção aos fatos, embora não seja empirista, julgo-o eu. Voltando aos textos sobre pintura devo dizer que ignorava quase todos, muitos deles são inéditos e são de tal interesse, qualidade concetual, precisão categorial, rigor analítico, delicadeza de síntese que só um apaixonado pela pintura, o que pode querer dizer que nada mais vê quando olha, pode dar.  Testemunho, juízos, declarações de que vivia nas obras em especial nos anos 50, 60, 70 e 80, capitais no segundo modernismo e na queda de Paris e do avanço do domínio dos USA da cena internacional da arte e em especial da pintura.  Destaco alguns textos só para abrir apetites.   1.24 - O equivoco do mundo estético,1.28 -  A pintura como objeto de compreensão. 1.32-O Romantismo estético de Croce.  1.52 - Em sentido e não sentido do moderno. Para um conceito de atual de modernidade.  Neste diz, a propósito da designação de deus ocasionatus para o homem, dada por Nicolau de Cusa,  “…desse ser nascem dois tipos de existência humana: a do homem que encontra na ocasião a forma de se demitir dos seus poderes e a do homem que se embriaga com esses poderes a ponto de crer dispensar o apoio da ocasião.(...) No domínio espiritual essas duas formas de convivência com o Presente traduzem-se na oposição clássico-moderno”. Ou então entre ordem  e rutura; manutenção  e aventura, etc.,  tendências imperativas ou básicas e essenciais , e por força oculta, desconsiderando-se mutuamente.  1.55 -No Ut musica pictura. Da poesia da pintura, considera e fundamenta a função primordial da imagem na criação da mente humana muito antes da fala e muito mais da escrita. As noções de moderno e clássico, da função da crítica, da natureza dos estético são basilares.  A critica da estética de Croce é exemplar num período que ele ainda era uma referência inquestionada, na cultura europeia de raiz francesa.  Se é verdade que se movimenta na esfera artística de Paris com desvios a Itália a Alemanha, começa a sentir a presença avassaladora da Escola de NY e da Costa Oeste. Mas ler/ver como se escreve bem sobre a pintura, sem ser pintor, embora trate também da questão de se  poder falar da pintura sem ser através dela, só sai de um grande intelectual e de um espírito raro ou ”tocado” .



 CÂNDIDO LÓPEZ









Cândido López,  Buenos Aires, 1840-1909, foi um pintor argentino que se notabilizou com as pinturas de guerra que fez da Guerra do Paraguai em 1867-69, a maior guerra entre nações sul americanas. Começou por fazer a guerra como soldado e depois de ferido gravemente fez uma vasta obra com pinturas como aquela que se mostra.  Quase sempre telas horizontais, com a relação 1/3, e de 150 a 80 cm de dimensão maior. As imagens são panorâmicas das diferentes batalhas em diferentes cenários naturais. É considerado um pintor naif, pois não teve formação académica, mas a sua interpretação das características do espaço natural, atmosférico, vegetal, perspético, não lhe permitem esse epiteto normalmente atribuído a conceções mais ingénuas ou primitivas. Na guerra perdeu o braço direito o que não impediu de pintar com a mão esquerda a quase totalidade da obra. A estrutura das pinturas é sempre muito semelhante.  Uma paisagem aberta com pouca vegetação e um enorme conjunto e subconjuntos de figuras militares em diversas funções ou ações.  O céu e a  terra ocupam metade do espaço da imagem, em muitos casos. Há mesmo o que se pode considerar o prolegómeno  do padrão, essa realidade plástica que cria um campo com unidade feita de  diversidade. Nalgumas das cenas, como a presente, é tratado o fim da batalha, noutras o decorrer.  A luz e os céus criam sempre um clima muito particular à cena e à pintura. As figuras são bastante detalhadas e por vezes são algo ingénuas, mas longe de primitivas. Estas pinturas retomam a questão central que o modernismo veio tentar evitar. A dimensão simbólica é tão importante na pintura como a dimensão estética. Uma pintura é muito mais do que uma superfície onde se organizam certas formas, certas cores, e certos tons. É um pedaço da representação da vida de cada homem, consciência de si e de todos os outros. Não um testemunho do que sente através  dos sentidos.  A guerra é o pior que o homem faz a si mesmo como espécie e individuo. Mas tem uma ética, em livro mesmo. Nenhum outro ser vivo conhece esse desígnio, vontade ou necessidade.  Estas pinturas que a representam num dos episódios mais sangrentos e longos, são vistas de longe, como encantadoras e sedutoras. Parecem mesmo algumas romarias, eventos, encontros, festejos. Mais de perto, muitas mostram a atrocidade a brutalidade revelada por uma estética de encantos.










O GRAFITER














Grafiter Anónimo, aquele que pinta a spray, o logotipo do seu nome nas paredes públicas. As paredes do edifícios em ruína, ou mesmo outros, e as designadas “obras de arte” do espaço publico são o suporte preferido por esse artista pós-spray. O spray que é um pistola de pintura é um instrumento magnífico. Tem poucas dezenas de anos e logo permitiu exercer uma prática pictórica que o homem nunca tinha conhecido. Uma vez soprou com a boca tinta sobre a própria mão, mas não voltou a fazê-lo.  O spray é muito cómodo, e hoje até tem preços em conta. É lata de tinta e pincel num só. Isso ajuda imenso. Tudo isto explica a extraordinária expansão e proliferação de obras no espaço publico.Talvez já ninguém lhes ligue e todos já deixaram de pensar que “suja a cidade”.  Um dos locais preferidos são os painéis das auto estradas e vias rápidas. Lugares ermos em que ninguém para e ninguém está autorizado a ver o que o cerca.  Passa-se a mais de cem sempre a olhar em frente. Os grafiteres fazem as obra para o “bando”.  Não confundo o grafiter com o estampador nos edifícios públicos, como Banksy, que tem uma poética e um projeto artístico e social de intervenção ideológica e poética. O bando aprecia, legitima e cultiva a ação e a solução plástica ou estética. Raramente estas obras adquirem um valor simbólico ou poético. São logotipos pessoais que a intempérie e o clima vão tratando até à fusão com o pó. O pintor das cavernas faria o mesmo? Era ele um outsider que às escondidas do bando gravava nas pareces e nos tetos em pedra? “Arte pura”. A ação sem fim em si mas com a finalidade de estar presente, deixar presença na circunstância da sua existência para si e para o grupo. A imagem que mostro foi recolhida na VCI, foi fotografada em andamento. Julgo que ninguém a vê pois a velocidade de circulação é sempre acima de 100km. Mostra a precaridade que essa imagem gráfica tem para todos nós mas não deixa de ter uma presença subliminar que é sempre ténue ou vaga. Interrogo-me, quantos mais anos assistiremos a essa continuada repetição dentro das mesmas variantes do modelo gráfico?




BILL VIOLA
















BILL  VIOLA, 1951, New York, é um dos mais destacados cultores da vídeo arte performativa. As suas obras muito divulgadas pelo YouTube, nomeadamente, são duma vibração emocional e de uma simplicidade comunicativa que lhe granjeiam muita admiração e até culto.  São já vulgares as considerações de que a água, a luz, a terra e o fogo estão na base da organização concetual e motivacional da ação das performances. As imagens registadas são editadas e tratadas em ambiente digital e, assim, se tornam a Obra. Considero que a sua obra é muito marcada pelo espírito do ar. Eu sinto falta de ar quando as vejo. Afogamento, irrespirável, secura ou paragem. O elemento expressivo mais determinante dos  vídeos é o movimento lento. Qualquer ação, independentemente de na realidade ter sido mais ou menos rápida, é depois reformatada para um tempo, um ritmo, que criam uma tensão, às vezes exasperante ou ansiosa, que é matéria expressiva artística. A violência , não só física, mesmo contida, está sempre presente ou é anunciada e em muitas obras ela vem da água mais do que do fogo ou dos homens. A água é muitas vezes agitação. Não é tranquilidade. Se a purificação como conceito ou experiência é por vezes induzida nem sempre é verdadeira. O corpo humano, em especial o do homem, é objeto e conceito de sofrimento, ou de sublimação, transfiguração ou espiritualização.  Esse universo pretende por vezes ligar-se a Cristo. Talvez por isso a dor é mais comum do que a alegria e o prazer. Religiosidade como anti hedonismo? Como por vezes se dizia dos realizadores de cinema, há quem diga que os pintores do renascimento se tivessem vídeo não fariam pintura. É uma suposição ou ideia tola; tão tola como achar que Viola, se não houvesse vídeo, seria um excelente pintor. Ele cria analogias ao nível do caráter das figuras, da sua força representativa, com imagens ou figurações de pinturas do renascimento maneirismo, barroco. Mas isso parece ser mais uma “habilidade” para estabelecer proximidades, citações e alusões no reforço de intencionalidade expressiva. Mas nada tem a ver o que se passa num quadro de Masaccio, Giotto,  Rafael, Pontormo.  A pintura é um outro objeto significante. As nossas mentes estão preparadas, mesmo sem treinos, para ver a diferenças.




BELLINI












Giovanni Bellini, 1430-1516, foi um dos mais destacados pintores venezianos. Esta pintura, com 119x73 cm, a têmpera sobre madeira, designada habitualmente como "sagrada alegoria"é para mim, há muitos anos, um epígono como imagem. É a “situação”. O que quero dizer com situação? É uma qualidade própria da representação num contexto semântico de forte conotação. O tema é uma incógnita. Algumas das figuras são reconhecíveis e possuem um significado canónico ou estalecido pela religião cristã e a moralidade envolvente da cena, ou situação, remete para esse contexto ou universo mítico. Mas a poética não é aquela das mais acostumadas nas cenas da ilustração da historiografia cristã. Estamos a falar de uma sensação de mistério, de ação suspensa, de voto de felicidade, de redenção ou plenitude. Esta imagem, admito, não a considero como sendo uma ilustração mas talvez uma alegoria ou então uma interpretação poética do autor duma situação imagética. A pintura veneziana como em Giorgione, por exemplo, tem outras obras de igual condição.  Talvez a condição burguesa da cidade, menos dominada pela moral e costumes religiosos mas pelas “leis da vida social e comercial”, explica essa poética. Hoje achamos isso natural. Pintar o que nos apetece, com as figuras que nos interessam e nas relações semânticas que surgem, procuramos ou impomos. Mas desde esse final do séc. XV até aos tempos simbolistas do final do séc. XIX, essa experiencia criativa e expressiva dos significados da obra de pintura quase não existiu. Ou se fez a denotação; retrato, natureza morta, paisagem ou se ilustrou a história bíblica, a mitologia grega ou cristã. É por isso que surge esta situação.


GALVÁN




















José Luis Lopéz Galván, 1992, é um jovem pintor mexicano que me apareceu nos passeios pelo Google. As imagens das suas pinturas surpreenderam-me pela profunda irracionalidade, arbítrio e delírio e, ao mesmo tempo, mestria da representação da figura humana e animal e na interação entre elas e os níveis de conotação. Ele habita as cenas internacionais, pois há muito que se desloca por esse mundo das cidades em que os gothics, freaks,heavymetal têm poiso. Não me é um cenário habitual nem de culto ou de adesão. É-me estranho. Essa estranheza manifesta-se no domínio da poética ou do estado de alma, coisas que andam muito ignoradas da vida das artes plásticas e que quando surgem ou se insinuam, como neste caso, nos levam a arrebitar a mente. Parece que o que domina a sua mente são os dispositivos imagéticos que insinuam anormalidade, abjeção, tortura, pânico, … Este quadro veio do surrealismo na sua senda de provocação moral da burguesia religiosa e convencional. Bosch foi o primeiro, para além das mais ou menos habituais representações medievais das torturas dos santos e pecadores nos infernos diabólicos, que se dedicou a levar-nos para essa zona das impropriedades dos corpos, das funções e das relações entre causa e efeito nas imagens. As tentações do Museu de Lisboa são um bom repositório. Mas nessas grandes cenas sobre o mal, a presença do bem, do bom, do perfeito lá está, mesmo que seja necessário procurá-lo. Mas nas obras de Galván estamos sempre a defrontar o grande mal, o grande distúrbio, a grande anomalia. O cinema e a BD já nos habituaram a essa condição de viver pelo horror. Mas a pintura que é uma arte objetual, e que existe como coisa em si, que vive num espaço, tempo e lugar especifico, leva-me a interrogar sobre quem gostará de ter em casa imagens destas? As imagens, como as pessoas e as situações desencadeiam em nós emoções e sentimentos e de seguida conceitos. É isso que nós esperamos da vida, que seja boa para nós, isto é reveladora, descobridora, transfiguradora, superadora mas longe do mal, já que estas ações o podem trazer. Estéticamente ele adota com algum critério na composição, como nesta imagem, a forma da mandala, e noutras imagens certas formas arquetípicas mas acima de tudo plásticas. A expressão cromática e textural é muito convencional e respeita critérios miméticos básicos e normais. Deus é para ser contemplado; o Diabo é para ser analisado.




      HIROSHIGE






Utagawa Hiroshige ou Andō Hiroshige, 1797–1858, foi um célebre desenhador, pintor e gravador japonês. Há dias caiu-me na mão uma edição com reproduções das Cem famosas vistas de Edo. Já conhecia há muito uma versão fac-similada das 53 vistas doTokaido. É um verdadeiro encanto esse encontro entre uma realidade natural e cultural tão invulgarmente estetizada, como é, em especial, a costa leste do japão entre Tóquio e Kyoto, e a estética das imagens produzidas através da gravura em madeira. Nesta metade do séc. XIX, no Japão ainda fechado ao exterior é surpreendente e fascinante como se desenvolveu uma tão delicada, intensa, apaixonada cultura da imagem do real. Esse real era o ukiyo, traduzível por mundo flutuante , termo budista surgido no séc. XVII, que era um mundo de tristeza e pesar mas também de hedonismo e contemplação muito próximo da vida das gentes e das paisagens que habitavam e construíam, longe da vida dos grandes senhores. Os motivos escolhidos eram desenhados primeiro, depois aguarelados e depois adaptados técnica e plasticamente à gravura em madeira. Estavam relacionados com diversos valores de natureza religiosa, mística, moral e social e não só a valores plásticos ou formais. A construção da imagem que partia do real era em muitos casos recriada e sujeita a transformações dos elementos representados naturais ou culturais como arquitetónicos e outros. A invenção formal e de efeitos plásticos é muito atraente. A composição da imagem é duma clareza, imprevisibilidade, surpresa, força expressiva que Van Gogh e os pós impressionistas da cultura francesa não puderam ignorar. Mas como vemos nas cópias de Van Gogh ficaram muito longe de ter compreendido. Os conceitos de vazio, assimetria, ritmo, tensão cromática eram estranhos à cultura artística e das artes plásticas europeias. Só no séc. XX os europeus artistas puderam aceder a esse universo.  Os japoneses desconheciam a perspetiva mas é surpreendente como ao contrário de todas as culturas não europeias dominavam a profundidade como realidade empírica, como a experiencia de quem vê o que o rodeia mas sem ter um sistema que o explique. A obra de Hiroshige tem em Hokusai um mestre genial e mais eclético. Não só se exprimiu através das imagens do espaço mas também dos animais e plantas que inclui duma forma surpreendente e original na imagem da paisagem. Na senda da grande pintura chinesa a representação constrói o mundo.









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AS TRÊS GRAÇAS

È  uma imagem do Vietname do tempo da terrível e estúpida guerra que  os USA promoveram. Três jovens de Saigão, capital do Vietname do Sul que os Americanos dominavam, hoje Ho Chi Minh. Logo fiquei atraído pela força do símbolo. As três graças são uma situação simbólica da mitologia grega que expressam o encontro no que é diverso, da alegria do encanto e da concórdia, coisa não frequente. São representadas nuas, pelos artistas em diversas épocas, tocando-se nos ombros com as mãos e olhado para direções diferentes. Chamavam-se Eufrósina, Talia, Aglaia. A tríade não é um símbolo de totalidade mas de abertura e de relação. Quando há três hipóteses para ver o mundo cria-se a possibilidade de uma das tendências ser preterida as outras. Se procuram a concórdia, a sorte, a gratidão elas sabem que não precisam de estar todas de acordo e haverá sempre um caminho a seguir. O três é o número perfeito para vários sistemas filosóficos, religiosos e simbólicos. Fé, esperança e caridade; soma, unidade e diversidade; nascimento, vida e morte; pai, filho e espirito santo, entre outros. Mas a cena de três mulheres, jovens que se relacionam com gestos delicados encontra aqui uma versão que encontro muitas vezes no real. A conversa entre três mulheres. A conversa entre três jovens não tem para mim a mesma expressão. Na imagem é importante a estética associada aos fatos ou vestidos. A imagem é dominada por tons de cinza que se espalham por toda ela e só os cabelos são de um negro intenso. A que não tem chapéu é a única que leva uma candeia e uma bolsa pequena. O passo é o mesmo das exteriores e diferente da do meio. Suavemente a brisa levanta as leves túnicas dos vestidos sobre as calças. Estamos longe da nudez que a pintura cultivou por razões sobejamente conhecidas. Os textos gregos não falam de cárites nuas mas vestidas. Nas duas que olham há uma apreensão, que aquela que para elas olha, tentará alimentar ou desvanecer. Há ali um espaço de segredo e, talvez, secreto. Mas é este um dos aspetos fascinantes do mundo da feminismo.







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NÁUFRAGO

O que se terá passado? O que aconteceu? O que espera o homem? Como foi fotografado antes de ser socorrido?  É uma imagem de tranquilidade no meio do caos e do horror, da solidão e do desamparo. A imagem a preto e branco como a maioria destes tempos dos anos 70, fornece muita pouca informação sobre o que estamos a presenciar, isto é, em presença de que estamos. É evidente que para se produzir um efeito de mal estar, de  desgraça, desconforto,  pouco é preciso. Logo me ocorreu a imagem das aves presas pelo petróleo dos desastres com petroleiros nas praias. Nós identificamos os sinais que apresentam certos objetos que julgamos reconhecer através de certas partes e do corpo e da face de uma pessoa que esteja integrada ou tenha sido afetada pelo evento. A luz da cena é neutra e não há luz solar, o que cria um clima depressivo e ausente de esperança, ou se presente o anúncio ou promessa de bem estar. No plano formal ou estritamente estético a imagem é constituída por uma forma tubular em curva fechada que entra no campo da imagem e dele sai. Sobre ela uma figura está sentada e inerte. Tudo se passa no quarto inferior da imagem.  O que há para ver no resto da imagem, são restos de coisas mais do que formas icónicas. Enquanto que toda a imagem é de um cinza que parece brilhante, metálico,  pela presença de reflexos, a figura é quase toda um cinza escuro com algumas presenças leves do mesmo cinza geral. Quase tudo se exprime por essa simples variação de dois cinzas com ligeiras nuances. Para se sentir a tristeza não precisamos de procurar mais.




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AS LUZES

É uma imagem muito imprecisa e da qual não temos informação documental ou funcional. Parece haver uma ação coletiva e em que as pessoas levam na mão uma vela, lanterna, ou luz. Estarão num lugar ermo e a imagem foi recolhida debaixo para cima o que reduz a informação sobre a envolvente. O elemento mais preponderante da imagem são as luzes.  E em termos de valores plásticos aquilo que reconhecemos como fogo e luz é uma pequena forma branca oval com ponta rodeada por um arco alaranjado que se junta a essa forma por uma zona amarelada imprecisa. A “ luz” surge porque nada na imagem tem uma luminosidade cromática próxima desse branco e laranja. Assim se faz a imagem do fogo. A luz retida na mão é um gesto e uma ação dum enorme e tradicional efeito. Quem o experimentou a primeira vez nunca o esquecerá e talvez mesmo, se não o fizer regularmente terá uma renovada  sensação muito particular. O fogo, a luz e a energia elétrica, hoje muito vulgar e com aspeto  físicos muito diferentes e mesmo sem calor, são a mesma coisa. Estamos em contato com o imaterial, o fugaz o repentino. Agarrar um relâmpago, reter um raio do sol, agarrar a faísca que salta da pedra faria de nós deuses. Então nestas pequenas velas nos aproximamos com receio, apreensão, atração, sedução e encantamento. Manter a luz acesa é, nas cenas como esta, uma tarefa preponderante. Hoje o interrutor afasta-nos dessa dificuldade, desse risco ou dessa contingência. Estamos afastados das forças vitais. Protegidos contra os perigos e as precaridades e desejamos ardentemente aumentar esses regimes securitários. Mas em grupo ter na nossa mão uma chama de fogo, um incandescência, a luminosidade como coisa em si mesma é uma tarefa , uma disponibilidade e um privilégio que deixamos de ter oportunidade de exercer. Provoca o recolhimento mental ou psicológico como as figuras da imagem parecem exercer. Cria uma referência para o próprio corpo não só simbólica ou mítica mas mesmo física ou de risco.  Porque estar junto à luz é o supremo privilégio.





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MARILYN MONROE

Vénus, em vida, entre os anos 1926 e 1962, em Hollywood, no cinema, retoma Afrodite, primeiro grega, nascida do mar numa concha de madrepérola, depois Vénus romana. È uma das figuras supremas de mulher, é uma das imagens de mulher mais difundidas no mundo ocidental nessa metade do séc. XX. Hoje poderia ser em todo o mundo globalizado. Mesmo noutras culturas e tradições a força da sensualidade, da sedução e  inocência, do erotismo, da ternura, da alegria ou felicidade, da juventude ou pureza se imporá ao observador. Esta imagem é muito marcada culturalmente, ao contrário de outras imagens de Marilyn, em que se mostra toda nua, como quase sempre Vénus é mostrada pelos pintores e escultores. O que há de mais branco, claro está na figura. É uma fotografia e preto e branco num tempo em que nos magazines a fotografia a cores era invulgar ou rara. O brilho dos tecidos exalta o branco acompanhado pelo brilho dos cabelos. Ela recebe a voz de alguém do outro lado da linha, segura numa mão o bocal do telefone, que era constituído por dois objetos dependentes ou solidários, quem se lembra? A outra mão segura uma caneta, objeto-instrumento também já raro e de coleção. O caderninho ou agenda de registos de moradas e telefones de interesse ali está. A Vénus romana só usa o corpo. A modernista tem que usar a tecnologia e os acessórios e objetos industriais. A face olha-nos, não só os olhos, mas os lábios, as sobrancelhas, os dentes. A postura é aquela aconselhada às datilógrafas e secretárias. Coluna curva, peito em frente, nádega recuada. Vestido decotado e com saia travada. E se algo do corpo se mostra ou anuncia do que se pode ver, as luvas se encarregam de esconder o que mais nos toca, os braços e as mãos. Ficam em reserva na promessa de maiores intimidades. A cabeça, tombada ligeiramente, exprime a fragilidade que esperamos poder vir a acudir.




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PAISAGEM DA MONTANHA

Este é o paradigma da “montanha mágica”. No espaço a terra sobe e cresce para o céu e parece subir sem fim. Temos o deserto plano que podemos percorrer com os olhos e com o corpo andando, e temos a montanha que esconde outra, e outra, e que impede o corpo de andar. Há os povos da montanha e os povos da planície e muitas guerras se guardam na crónica humana sobre os seus confrontos e recontros. A montanha é lugar de refúgio. O sente quem lá está. Estará mais alta e dirão “perto do céu”. Eu sei que não. Mas sei que o ar é mais rarefeito a força da atração da terra é menor mas o cansaço no corpo é maior. Por isso estamos menos na terra. Nesta imagem da montanha, nos Himalaias, a presença dos habituais mosteiros budistas é costume. Mas aqui o que me interessa é a possibilidade que essa presença nos oferece de sentir a escala no real, pois ela é de fato uma relação entre o real e a sua representação. Mas que tamanho terão as imagem de mais três conventos colocados nos outeiros das montanhas seguintes? As montanhas que vemos atrás não têm uma dimensão relativa. Vemos no primeiro plano umas rochas. Elas terão cem metros ou dois metros de altura? As paisagens naturais, que não são constituídas por objetos produzidos pelo homem, não têm um valor dimensional. Nunca sabemos a sua relação com a dimensão humana. A isso com pouca precisão se diz escala. Por isso as paisagens com presença de construções humanas confere à dimensão da montanha um valor e um referencial que nos permite sentir o que é grande e o que é pequeno. Nesta paisagem da montanha parece não existirem árvores ou o mundo vegetal relevante visualmente. A montanha, a partir de certa altitude, é sempre assim desértica, ou árida, ou rochosa pois mesmo quaisquer elementos orgânicos foram retirados pela erosão. É a montanha descarnada mais afastada da presença ou da revelação da vida. Então parece que surge mais intensa a presença do espírito. Podemos dizer que o espírito só surge depois da vida ter desaparecido? Que os monges tibetanos encontram nesse ambiente o seu lar pode ser só uma ação de proteção e defesa. Ou mais que isso.




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FACE DE MULHER

A face é a parte da cabeça dos humanos que tem a mais complexa relação de elementos expressivos.  São eles que nos produzem, quando vemos uma face humana, muitas sensações, emoções, sentimentos, indícios além de sedução e dependência.  Uma face pode ser vista de frente, de perfil ou a três quartos. Nunca ao mesmo tempo. E quantas vezes verificamos como a face de perfil nos comunica ou exprime sensações que a imagem frontal não revelava, ou vice-versa. Essas duas visões da mesma realidade são fascinantes em termos de perceção e comunicação da imagem da pessoa, de variação e diferenciação do tipo de face ou de fisionomia. Nesta face de uma octogenária poderemos encontrar sinais e expressões que cada um recolherá. Eles surgem a partir da plasticidade de um órgão, a pele, que se apresenta conforme se vão alterando os processos de envelhecimento celular. As alterações que os componentes da forma da face vão sofrendo conferem à face uma atração, um fascínio e uma variedade que a mesma face, com 15 anos, não teria embora expressasse, pelo seu caráter e estrutura os mesmos sentimentos ou outros muito semelhantes. É possível encontrar conjuntos de padrões nas rugas entre as sobrancelhas, sobre os lábios, sobre os olhos, sobre o nariz, na testa que são muito atraentes plasticamente ou esteticamente, embora desagradem, normalmente, ao seu portador. Psicologicamente a face é o terreno onde podemos detetar os sentimentos ou a emoções e o caráter e até sinais da história mental do ser. Desde o sofrimento recalcado, à serena existência, à tranquila vivência, etc. Mas estas interpretações, estejam mais ou menos fundamentadas por sistemas interpretativos da fisionomia das marcações musculares da face,  estarão sempre longe de nos dar a “história da pessoa”. Esta face tanto me transmite uma tranquila vida como sofrimentos aceites. Tanto são sensuais os lábios como são tristes ou melancólicos os olhos com as curvas baixas das pálpebras. As sobrancelhas estão muito firmes ao centro e muito caídas, em sofrimento, para os lados. O olhar, as iris são muito grandes e escondem muito do branco do globo ocular. Bondade, perdão, serenidade, aceitação… ,ou…




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A MÃO

Nove mãos tentam tocar outras mãos. Temos a sensação de opressão e carinho. Uma irreprimível necessidade de tocar o outro é o que origina esta imagem. Como seria uma necessidade irreprimível, idêntica, com cães, que também as têm, sei eu? Tocando-se com a boca. Nós também o fazemos. Mas nada substitui a mão quanto ao tocar, ao saber e ao conhecer o que é a outra coisa ou o outro em que está a mexer.  Baxandall no seu livro, Giotto e os oradores, trata dessa ordem dos gestos e das posições da mão na pintura e na prática da prédica cristã medieval. Cada gesto tinha um sentido e um significado mais ou menos canónico ou cultural. Mas aqui os gestos que se manifestam pelos movimentos das mãos são a manifestação de uma energia, de uma confidencialidade comunicacional. Sempre preferi apertar a mão a uma pessoa, aos meus netos, do que dar o simulado beijo na face que eles repelem e que eu me lembro de repelir quando menino. É húmido e se fosse na boca era reciprocamente húmido. No aperto de mão, que pode ser muito variado, é seco mesmo nos casos de suores excessivos. Mas eles também são comunicação. As mãos são ossos, músculos, tendões, textura, e calor. Sabe-se que nas pontas dos dedos a pele têm uma capacidade de recolha de informação muito superior a todas as outras partes do corpo. Estes humanos que se atiram ao figurante e querem tocá-lo usam deste dispositivo do seu corpo na relação com meio. A imagem é muito curiosa pelo movimento da  associação rítmica das mãos. Por outro lado, as mãos são todas magras ou pouco grossas ou gordas. Essa magreza dá mais energia, vigor, nervosidade aos gestos. Todas as mãos estão abertas prontas a receber o contato. Sabemos como a mão desempenha um grande papel, mais do que qualquer outra parte do corpo, na violência sobre os outros e sobre o meio. Olhamos as nossas mãos, num tempo de estetização do corpo e da própria mão, acima de todos, na mulher, sem exigências. Mas podemos ver nela corporizados, mesmo latentes, esses desejos de contato, posse, ação, domínio, carinho, afeto, agressividade, castigo, punição, destruição, que nenhum outro ser vivo usa com tanta precisão e segurança. Cinco dedos.



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ESTAR

Esta é uma imagem que só poderia ser recolhida, ou vista, a partir dos anos 60 nos USA e na Europa. Ela contém ou exprime uma conceção de grupo social, de vínculos, e dependências, de regimes morais, de costumes sociais, de crenças e de sentidos de segurança e bem estar. O homem sempre procurou os grandes agrupamentos e há imagens de festas religiosas diversas em que o agrupamento se faz mas não tem esta forma este padrão, este aspetos. Apesar da aparente desordem todas as pessoas, homens e mulheres entre os 15 e os 30 anos, estão viradas para uma direção, salvo raras e ocasionais exceções, como o fazem as gaivotas em grupo na praia. Ainda não olham para algo preciso, num sentido definido, mas parecem esperar que algo nessa direção aconteça. A maioria está deitada o que quererá dizer que estão nessa posição há bastantes minutos ou horas. Sair deste espaço ou lugar é uma tarefa que só se pode verificar individualmente e com muita dificuldade.  Em grupo só com muita ordem – caso contrário é um caos. Mas esse risco é bem aceite ou ignorado. Há um sentimento de intimidade, mesmo entre estranhos. Com frequência nas grandes praias sucede algo semelhante e aí estão todos quase nus. Mas esta presença só se realiza para assistir a um ato ou a uma atuação, talvez musical ou previsivelmente de música pop-rock. Todos estão sentados ou de joelhos e essa condição de pose dá essa sensação de passividade ou não ação que certos grupos pacifistas na América lançaram como ideologia politica e social. O cromatismo da imagem não é muito fidedigno face ao que se encontraria no real. Mas é sempre curioso ver como ao caso se criam padrões cromáticos ou tonalidades dominantes na imagem que lhe conferem um caráter próprio. Tudo seria diferente se estivessem todos de preto ou de cor rosa e amarelo. Aí a cor desempenharia um papel não só estético mas semântico e alargaria o espaço de significação da imagem. Nesta domina a neutralidade. É um padrão, em termos estéticos, e podemos encontrar leves movimentos rítmicos originados não no acaso mas no que resta duma ordem formal aplicada ao ajuntamento informal de grupos humanos. Um padrão que é, também por natureza formal, o local da indiferenciação, da igualdade, dos diferentes e dos iguais.  Estão tranquílos.





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FUNDIDORES

A tarefa milenar da fundição de metais está na base da tecnologia industrial. Estes homens filhos de Vulcano, recordam-me a pintura de Vélazquez, Apolo na forja de Vulcano, não pelo tema ou pelo significado ou conteúdo mas pelo contexto e pela cor dominante.  Têm nas faces um orgulho que vem dos deuses, não sei se dos gregos ou dos da idade do ferro, mas  não do calor e do esforço de domar o metal fundido. É uma imagem em tons de sépia e algum preto e branco. A composição da imagem é clássica ou convencional. Figuras hieráticas sem ação ou me ação contida. Só vemos 5 mãos das dezasseis possíveis. Isto diz-nos que pouco têm a dizer. E mesmo essas estão um pouco recolhidas. O que têm a fazer é muito mais importante, como acontece com quase todos os operários, figura que deixou quase de ser nomeada pois a industria já não é o único motor do mundo. Todos nos olham, perante a formal fotografia de grupo, do repórter, exceto o da esquerda que olha para longe. Mas estão sorridentes, por alguma piada de ocasião se produziu. Mas o líder está indicado e presente. Todos têm óculos, ele não. Tem pala como alguns outros. Não é o mais baixo mas é o mais frágil fisicamente. Um homem de barba dura que se envolve no manto de amianto e ligas de materiais resistentes ao fogo e ao seu calor. Sempre me senti fascinado pelas profissões nos limites do suportável, como é a dos mineiros. Sempre me surpreendeu e encantou ver como não trocam essa vida por nada deste mundo. Parece que têm um pacto secreto, uma sina ou uma marcação feita por magias ocultas. Mas hoje e agora há tanto o sentido do confortável, desde os carros, aos locais públicos, às casas e locais de trabalho, hospitais, nesta sociedade do desperdício, do irrelevante e vulgar, que só nestes contatos podemos olhar a vida com outros olhos e tomar consciência que ela é, por natureza, precária, rude, perigosa, desconfortável tanto como deliciosa.





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GENOCÍDIO


Esta imagem é uma fotografia. Poderia ser um desenho a grafite em barra, em pastel seco. Mas alguém assistiu a esta cena. Alguém viu esta imagem antes de ser fotografia. Nenhuma das pessoas, que acreditamos serem aquelas figuras, viram esta imagem ou as imagens que os seus corpos nus e os seus corpos vestidos, associados de forma terrível, infernal, demoníaca, viveram. Esta associação é um dos mistérios do sentido do devir humano. Elas não olhavam para os assassinos. Estes mataram de costas. Será melhor olhar de frente quem nos vai matar, ou não ver? Como é possível que alguns homens armados matem dezenas de mulheres nuas num descampado duma mata? Há mulheres já mortas. Outra estão ainda vivas, uma estava a ser morta a tiro. São soldados nazis. Mas ainda há poucos anos, nos Balcãs, em várias regiões do Oriente e na África os homens exercem o extermínio de outros seres humanos por diferenças de cultura e crença. Seguem uma necessidade e uma pulsão que a Bíblia nos mostra, em muitos momentos, ter uma funda tradição no ser humano. A fotografia deixa-nos ver, como imagem, uma cena que a história humana testemunha com inúmeros eventos semelhantes conhecidas por testemunhos dos sobreviventes ou dos carrascos. O fotógrafo estava a documentar o massacre como prova para os chefes ou como meio de denúncia? Como se pode sentir o ódio, a ignominia, o rancor, o horror? É possível apreciar esteticamente esta imagem? Se fosse um desenho seria? Uma fotografia de um massacre não é arte. Mas a pintura de um massacre é arte. A representação é a volta que a mente do homem descobriu para poder fazer isso ao realizar a imagem e a observá-la. É irrelevante o grau de nitidez, de detalhe, de resolução, num caso ou noutro. Estamos emocionalmente, eticamente, impedidos de olhar para esta fotografia e reconhecer valores estéticos na imagem. Só nos resta rezar, orar, silenciar, parar, parar, em memória.



 IMAGEM E QUASE MIL PALAVRAS . 2




















INSTITUIÇÃO

É a primeira palavra que me ocorre depois de ter visto a fotografia algum tempo. E devo escrever quase mil. Quando a encontrei, nos encontramos, fui dominado pelo fenómeno estético. A imagem antes de representar ícones ou figuras de seres humanos é um campo plástico em que se ordenam tensões, movimentos, repetições e ritmos que são, como na música, os fatores decisivos da estética. A regularidade desses fatores plásticos cria um padrão estrutural mesmo dentro da diversidade ou das particularidades. Se olhamos para a imagem, sem fixarmos o olhar, ela cintila ou o nosso olhar salta pelas formas antes de serem cabeças. A força da imagem estará aí. Também senti um apelo, pois esta não é uma imagem abstrata mas uma representação e contém forças sentimentais e morais. Todas estas pessoas olham para mim e já morreram. As séries de filas sempre cada vez mais longe e cada vez com mais figuras, que me olham, deixam-me perturbado. Elas sabiam que alguém, passados 75 anos, iria olhar para elas, mais do que para a imagem delas. Nós não temos consciência da nossa imagem mas temos consciência de todo o nosso ser até ao ponto em que a consciência é capaz de atuar. Em cada uma delas havia um problema para resolver na Escola de Artes Aplicadas em que trabalhavam em New York. Mais próximos de nós estão os mais idosos e lá no fundo os mais jovens, provavelmente. Em muitas delas havia uma esperança de que nos dias seguintes se realizaria o seu desejo ou encontrada a solução para o problema do momento. Procurei verificar se alguém me não olhava. Na terceira fila, à esquerda, a senhora desvia o olhar. Saberia que eu iria constatar esse fato único? Todos os outros me olham. São uma instituição. Só o individuo é capaz de ter ideias de inventar de criar. Mas só a instituição que outros criaram podem dar sentido ao seu poder. Acho que todos sabiam isto. Alguém propôs ou decidiu que esta fotografia fosse feita. Ela foi feita numa data especial, não interessa qual. As pessoas acreditam que essa imagem vai ficar e que eles vão desaparecer. A fotografia veio tornar este desejo ou invenção muito fácil ou acessível. Mas a força comunicativa, expressiva, indutora, não sabemos como se vai constituir e atuar nos tempos. Eu não posso mais esquecer esta imagem que ultrapassa a condição de cada um dos presentes na sala e apresentados nesta imagem. Entre eles, os mais próximos, podemos estabelecer empatias leves mas nunca passaremos daí. Não ignoro o cenário neo-gótico muito cultivado nas instituições culturais americanas. Mais instituição presente. Estas 70 pessoas presentes e visíveis são quase com certeza de idade superior a 40 anos o que é surpreendente pois parece que nestes tempos não havia gente jovem nestes locais. Fico com a impressão que são todos da mesma idade. As fotografias coletivas são sempre comemorativas. Num certo dia, numa festa ou evento as pessoas devem deixar registado esse momento, para mais tarde recordar. E sabemos como as pessoas se deliciam a encontrar, a descobrir aquele ou aquela que eram seus colegas. Esse contato esse reconhecimento faz o tempo e o tempo cria essa necessidade e esse prazer que nos faz pertencer. Esse sentimento de pertença, de ter sido com outros, é muito reconfortante e está muito para além da fotografia. Quantas imagens existem nesta fotografia? Quantas imagens esta fotografia, que nos é estranha, nos faz surgir no ecrã da nossa mente?

Nov.2016




UMA IMAGEM 
E QUASE MIL PALAVRAS  .1















O PINTOR E O MODELO

Este é um dos temas pós-clássicos e misteriosos da pintura. Porque quer o pintor mostrar-nos o que se passa nesse delicado momento em que entre o que não sabe o que quer pintar e a vontade de o fazer? Esta imagem, que é uma fotografia, mostra esse momento. Quase não o mostrava. O que a torna mais misteriosa. Uma oficina de tecelagem e também atelier de pintor. À esquerda pode ver-se um retrato de um “modelo” feminino, desenho ou pintura, tanto faz. À direita, com muita evidência, uma mulher nua posa para o artista pintor, pois que estaria a fazer uma mulher nua numa oficina de tecelagem.  Dele aparece um braço armado de pincel que pinta uma tela onde parece surgir a imagem de uma mulher nua. Estará ele a servir-se da mulher nua com o modelo? Sabemos demais como os pintores desde o séc. XVIII iniciaram uma já longa exploração desse tema. Um modelo, existirá, porque se quer fazer um retrato. Um retrato é uma tentativa de apreender e representar os aspetos essenciais visíveis e latentes de uma certa realidade. Um modelo não é uma imagem mas um reservatório potencial de imagens. Se desenhamos uma mulher nua de imaginação fazemos recurso a enorme quantidade de imagens de mulheres nuas que a nossa mente contém em níveis muito diversos. Isso destina o desenho a recorrer-se de configurações que estão estratificadas e sedimentadas de na nossa mente segundo certos padrões de gosto, de sentimentos e valores morais. Por isso se dizia no classicismo em geral que desenhar a partir da natureza, do modelo, era a forma de fugir aos vícios formais e às convenções. Ser criativo e inovador. Com o modernismo este quadro cognitivo, este processo de gestão do conhecimento e do saber foi anulado. Ficou só um quadro de saber que reside no interior experienciado e herdado do autor. Assim se passou à situação do modelo ser um mero pretexto. Como quase sempre é um modelo feminino e o artista é homem.  Poderá haver uma relação entre o modelo e o artista que ultrapassa a condição de objeto retratável. Pode ser voyeurism, pode ser estimulo sentimental, erótico, sensual,  enfim... Todos sabemos que um modelo nunca é a imagem para obra. Para isso existe a fotografia. Um modelo é uma motivação, um condicionamento que produz libertação. Um ponto de partida para uma chegada inesperada. Mas o que está na base desta atitude ou desta satisfação é o abandono da mimésis, da representação da realidade iniciada na arte nos meados do séc. XIX. A expressão do próprio artista é a base do critério para valorizar o ato de pintar que passa, acima de tudo, a ser “criação”. Não representar o visível mas o que está “dentro” do artista. Ainda hoje esta cultura, este paradigma, se mantém pois assenta na força de um direito bem moderno e romântico. Ser-se o que se é e não se submeter a modelos consagrados a modelos morais. Ainda vivi, na idade dos dez, esse universo e a presença dessa condição, desse paradigma. Senti como foi duro e complicado vencê-lo. E vejo hoje como ser autêntico, individual e subjetivo é comum e aceite. Uma ética da autenticidade é aquela que nos enquadra mas que encobre contradições e mesmo desvios e abandonos. Mas como todos sabemos este mar moderno e modernista não é de rosas; às vezes é quase um pântano.





. EXPOSIÇÃO FAUP . 

 Projeto RISCOTUDO
     https://riscotudo.wordpress.com/
   de 20 de Março a 20 de Abril
 

  
DESENHO setorna PINTURA

 10 montagens de aguarelas e desenhos
  

As peças da exposição mostradas a seguir, são a montagem ou associação de um desenho sem pensar, realizado há alguns anos, com uma aguarela que foi elaborada a partir dele. As aguarelas são mais recentes e fazem parte de um conjunto de aguarelas, entretanto realizadas, e em realização, seguindo o mesmo processo. 5 peças são baseadas em desenhos sem pensar, em A4, ao alto. As outras cinco são baseadas em desenhos sujeitos a tema livre, em A4, ao baixo
















PINTURAS NO iPad
- imagens a Sul 2015




























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. DESENHO DE NATAL 








. NOVAS PINTURAS A ÓLEO


 
óleo sobre tela 140x110 cm


óleo sobre madeira . 60x40 cm


























. NOVAS PINTURAS NO iPad








 










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Equilátero e Escaleno 
falam sobre se
VALE A PENA MORRER PELA 
CULTURA ARTÍSTICA
13ª conversa

1.1–Escaleno, presumo que estejas em viajem afastando-te desta nação, tanto quanto possas, para sentires mais falta dela. Não sei como encaras esta interrogação ou afirmação. VALE A PENA MORRER PELA CULTURA ARTÍSTICA (?) Será que poderemos passar da interrogativa? Será a cultura um instrumento ou o corpo essencial da existência, como dizia certa filosofia na1ªmetade de XX? Ou a cultura nesta época contemporânea não existe mais como teria sido definida na antropologia, sociologia e filosofia anteriores aos anos 50? Ainda me recordo que na nossa cidade há 60 anos, havia 3 jornais diários onde tudo o que se passava na cidade e alguma coisa do mundo das artes ali se encontrava tratado ou referido. Avida cultural artística tinha uma página em que semanalmente muitos dos intelectuais da cidade e do país recenseavam as exposições, os filmes, os livros, etc.. Internacionalmente isso também se passava nos principais jornais e revistas. Parecia haver a crença numa “ordem cultural” e num destino. Hoje isso desapareceu. A modernidade na sua versão modernista e posmodernista transformou essa vida na afirmação de um exercício individual, totalmente livre. A história é ignorada pois só trata do que não existe e o que existir, amanhã já será história, por isso futuro. Têm quarenta anos as primeira reflexões sociológicas sobre a sociedade em que vivemos. Dizia-se, “o modernismo era uma fase de criação revolucionária de artistas em rutura, o pósmodernismo é uma fase de expressão livre aberta a todos.” Com a sensação de comoção, na sociedade de consumo massificado, que já nessa altura se sentia, estaremos nós hoje mais envolvidos, integrados, pacificados, alienados, ou perdidos?


2.1 – Equilátero ainda bem que voltas. Eu também já voltei. Ando precisado de viver. Mas não sei se a nossa salvação está na cultura artística e se vale a pena morrer por ela. Num tempo em que o individualismo ganhou cidadania, pode mesmo ser considerado narcisismo, hedonismo, o que vale a nossa relação ou dependência com os outros? E não é isso a cultura? Como disse Max Weber, se não me engano, desde que a política, a filosofia, a religião e arte se separaram a salvação do homem faz-se ou por um, ou por outro dos caminhos. A cultura é aquela prática que a mente inventou para nos permitir criar e alimentar o conceito de eternidade. Não são só as religiões. Não sei se vale a pena morrer pela cultura artística mas pelo clube de futebol do meu coração valerá, com certeza. E já morreram vários. E também pela ideia de serviço ao outro. Stephan Hawking acha que daqui por mil anos o homem abandonará a Terra. Que se cumpra o Apocalipse. Mas estará enganado, pois deve ser mais brevemente. Eu por mim não estarei cá para ver e se estivesse só me restaria continuar a fazer as minhas pequenas obras artísticas e a cuidar das minhas flores que não sabem o que disse Weber. Será a cultura artística a minha salvação? Nem a religião me é útil, a filosofia e a ciência, ficam aquém e a política faz o que pode para nos iludir. De fato viver hoje a realidade cultural é impossível. Também me recordo dessas páginas de cultura dos anos 50 e 60. Eram ternas e tranquilas mesmo quando nelas se passavam debates acesos. Hoje o mal-estar advém da perda de sentido que está associada ao excesso, ao indiferenciado, ao igual, ao fácil, ao pessoal. Nunca tanta gente foi a concertos, a exposições, a museus e comprou livros. Mas quando por lá andámos o que vemos é que raros vêm, ouvem e lêem. E mais raros ainda falam ou gostam de falar do que viram e viveram. Hoje nos vários média o que encontramos são algumas conversas de promoção entre amigos. O mundo da música pop-rock surge como o mais são, sincero, ingénuo! Lá voltaremos.

1.2– Julgo que concordas comigo se disser que somos uns papaguiadores. Dizemos aquilo que os outros disseram. Bell, Lipovetsky, Marina, Taylor, etc. Reconhecido isso ficamos dispensados de estar a citá-los e aconselho mesmo aqueles que aqui chegaram a lê-los, de preferência, do que a seguir o que dizemos. Apetece-me, porém, referir um filósofo do nosso tempo, Charles Taylor, que voltei a reler e que estará na base da motivação para pensar contigo – a sós é tão penoso – sobre essa coisa de cultura artística. Algumas das ideias a que  chegaremos são dele, mas não é necessário estar sempre a referi-lo. Como tu dirias, quando as ideias forem boas não são nossas, são deles. Em cada hora, de cada dia, de cada mês, de cada ano convivemos com a diversidade artística. A mais agressiva, a mais tradicional e conservadora, a mais elaborada, a mais corriqueira, a mais antiga, como a mais recente. A esta realidade chama-se cultura que se junta ou aparato mais ou menos complexo de atos de socialização que os média dominam a seu belo prazer. Nunca a vida do homem, se fez, se cultivou perante um quadro semelhante. Não sei se isto nos faz bem ou mal. Se é um mal menor ou bem maior, ou o contrário. Mas não se pode deixar de reconhecer um “mal-estar”. As posições mais agressivas da cultura modernista sempre defenderam que o papel da arte era perturbar. Isso destruiria a sociedade burguesa e abriria a porta para uma sociedade mais igualitária ou mais perversa. Para um crente, a cultura é um elemento do processo da vida mas não é um bem em si. A dimensão ou a experiência contemplativa e espiritual que o homem cultiva há milhares de anos, fez dele o depositário de uma relação entre o microcosmos e o cosmos que deverá ter qualquer sentido?


2.2 – Equilátero, a nossa vida cultural moderna decorre em três dinâmicas que a sociedade capitalista na Europa e América desenvolveu nos últimos 100 anos. Ela alargou-se vertiginosamente nos últimos anos por todo o mundo, com fortes reservas no mundo árabe em certas dimensões  culturais.  A tecnociência, a gestão e a comunicação apoiam e determinam os caminhos da globalização. A democracia provocou mais igualdade na vida social e nos direitos cívicos e o reforço de uma ética universal, a livre expressão do individuo e a eliminação de critério morais restritivos. Para isto concorre um laicismo evidente mas ao mesmo tempo a maior liberdade religiosa. Essas três dinâmicas não são concordantes, nem estabelecem entre si ligações coerentes. São mesmo contraditórias. Taylor fala da conflitualidade entre culto da autenticidade individual, domínio instrumental da sociedade e de fragmentação do corpo social. “Cultura é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e qualquer outro hábito ou capacidades adquiridas pelo homem”, disse-o E.B. Tylor, em 1871 e ainda tem sentido. Outros autores, mais recentemente, afirmam que “Cultura é um conjunto de atributos e produtos das sociedades humanas, em consequência, da humanidade, que são extrassomáticos e transmissíveis por distintos processos da construção e criação genética”.
Mas por ser cultura, seja lá o que for, não é por isso que é bom. É muitas vezes mau e há culturas anexadoras e destruidoras de outras. A sobrevivência de certas culturas só existe por destruição de outras. Há o pensamento politicamente correto de que tudo o que é produzido pelo homem merece ser protegido, pois será cultural. Mas isso é falso não por ideologia mas por necessidade. A sobrevivência cultural até um período expectável é uma luta permanente e constante dos seus herdeiros.

1.3– A cultura é por definição o espaço que envolve a criação. A criação não é um atributo exclusivo da arte pois a arte é um dos campos da cultura. Nos anos 40 e 50, nos EUA e no Canadá, desenvolveu-se uma investigação no campo da sociologia da cultura. As noções de alta, média e baixa cultura baseada na análise de obra e contextos artísticos e comunicativos, que os novos média vieram criar, permitiram uma teorização que deixou de contar, por não ser politicamente correta. Sabemos que tudo o que homem faz é cultura e talvez mesmo a sua modificação genética. O desporto e o espetáculo, como o futebol, e  o golf são cultura. Maradona e Cristiano são para os argentinos e portugueses heróis. Mas são o quê culturalmente? Ícones, cromos? Qual é o corpo cultural de uma estrela de futebol? Quais valores e experiências enriquecedoras transferem para nós? O universo cultural é hoje em dia, ou na modernidade, ou na contemporaneidade um fenómeno muito diverso ou uma realidade com muitas diversidades. Há o culto das artes antigas, edições, vídeo, concertos, exposições, etc., com grande adesão de públicos e uma outra realidade feita de ações atuais com públicos mais restritos. Mas há públicos para tudo. Como já vimos a tradição do novo tem um paralelo na novidade do antigo. Pois cada vez mais o novo deixa de um ser com mais velocidade. As variações de grau, como já referi, tornam ainda mais alargado esse universo. A nossa sociedade é pluricultural e os seus membros estão-se nas tintas para qualquer veleidade interpretativa e categorizadora. É bem conhecida esta situação e a influência que tem nas instituições de ensino. Não lhes restará mais do que assumirem uma orientação específica, crítica e de tendência para conquistarem posições de diferenciação qualitativa?

2.3 –  A cultura como conceito moderno é aplicado a quase todos os produtos e ações que a revolução social e política e a revolução industrial e tecnológica, iniciadas no final do séc. XVIII, produziram. Vivemos há algumas décadas o tempo da indústria cultural. A cultura pertence ao setor terciário. É um serviço. Mas é um serviço que quer conduzir o grupo e o sujeito, quer ser super-estrutural e, ao mesmo tempo, negócio e mercado. Dantes era a igreja ou a religião que incluía e ditava a arte. Depois a aristocracia e a burguesia, desde Roma antiga, continuaram a fazê-lo. Há algum tempo, os estados totalitários também. Aquilo que chamamos cultura artística é uma enorme amálgama de realidades artísticas, disciplinares e sociais. A música e a canção pop e afins, a música erudita, o jaz, o cinema de autor e a telenovela, os marionetes e o teatro nacional, a exposição de Bosch, as instalações nos CAC, o romance policial e o poema são mundos que coabitam permanentemente em contexto. Podemos fazer reservas, mas eles não deixam de andar em volta. Assiste-se também a forças e dinâmicas ditas de multiculturalismo. Equilátero, nunca saberemos o que é isto tudo, como nunca saberemos como é o Universo. A consciência que temos hoje do que se passa no domínio das relações de causa-efeito no universo é semelhante ao que se passa no universo cultural. Uma realidade é cósmica e incluímos a outra que é antropocêntrica e queremos incluir lá tudo. Para que vale a pena saber o que é a cultura? Para dirigir ministérios, para orientar a pedagogia artística, para fazer arte, para que os artistas tenham consciência do que são e para onde vão? Acho que não servirá para nada, como podemos comprovar todos os dias em tanto desvario e sem sentido. Só interessa aos média como seção dos alinhamentos dos programas. No El Pais, na seção de Cultura podemos verificar, nós os portugueses, como isso é entendido pelos povos e como os seus arautos o conformam. A maioria dos autores referidos com muita prodigalidade são espanhóis e hispânicos, os estrangeiros são raros e são sempre as estrelas consagradas. Portugueses, gente irmã, só muito raramente. Quer dizer a cultura portuguesa só interessa aos portugueses. Mas nós seremos daqueles povos que mais se interessam pelas outras culturas. Confesso que gosto de deitar o olho quase diário ao El País cultural, coisa que nenhum espanhol fará pelo JN.

1.4 – A modernidade queria criar um autor novo. O autor que nasce, se desenvolve, isolado, seguindo o seu caminho e que depois a sociedade adota e reconhece como saído de si, ou pertencendo-lhe. Pode mesmo fazer toda a obra contra a sociedade. Depois ela aceita-o e glorifica-o. A cultura é essa relação contraditória entre o velho e o novo, o que nasce e o que existe, o que foi aceite e o que surge, e a sociedade necessita disso. A cultura é uma realidade efémera, como o inseto macho com esse nome, que vive um só dia, do nascer ao pôr do sol. A vida, os gestos e as obras tendem cada vez mais a ser assim. Há cada vez mais autores, e obras e cada vez menos espaço e tempo para as poder conhecer e, menos ainda, para as cultivar, o verdadeiro sentido de cultura, desde os romanos. Há poucos anos a cultura era definida e enquadrada por uma élite. Na modernidade iniciou-se um movimento de liberalização e democratização dos critérios que no pósmodernismo desapareceram.  Continua a haver especialistas mas sem autoridade.  Gente que pensa o “e porque não” como caminho para surpreender e  vencer  e não como caminho dialético. Hoje tratamos de nós e de alguns dos nossos parceiros mais ou menos próximos e temos as “grandes referências clássicas” para não nos sentirmos mesmo sós. Como Taylor admitia há anos, este contexto encerra o risco da fragmentação social e de num mundo global o que passar a contar ser o local. Mas eu não vejo nisso mal, como também não o vê Fernando Belo. A cultura popular numa das suas versões mais eruditas ou elaboradas concetualmente, a BD e afins, continua a com a música pop rock a viver com naturalidade num contexto da baixa cultura na sua relação com os públicos  e os criadores, como tu já anuncias-te. Os eventos promocionais nestas áreas associados à animação, ao vídeo e filmes têm uma forte presença e uma forte vivência cultural. Há ações de criação em grupo, de animação interdisciplinar e socialização de obras, debates em público e nos média. O suporte desta dinâmica é o comércio de produtos e a consolidação dum mercado internacional. Os autores e obras são transnacionais. Onde ficamos nós, Escaleno?


2.4 – Equilátero, à deriva ou em devaneio, como para aí se diz, como gente deste tempo! Muitos dos artistas plásticos modernistas e em especial pós, continuam nos seus discursos a querer convencer-nos de que o que fazem é, por inerência, arte, já que são artistas. Eles não têm um espaço, nas suas mentes, de dúvida ou de dialética. Eles são senhores do seu destino e duma “razão” que não é racional. Nunca se tinha ouvido da boca de qualquer pintor desde tempos imemoriais tão pobre tautologia. E como arte é a mais nobre das ações humanas a que todos podem aceder como autores a tautologia é total. O urbanismo, isto é, a transformação do espaço natural para o bem estar e elevação do homem, reflete a cultura de uma sociedade. As cidades emanam um espírito que é o espírito dos seus habitantes daqueles que lá viveram e dos que vivem. Mais do que nas grandes obras ele está nos pequenos detalhes ou pequenas coisas. Ocupar o espaço natural reflete sempre um certo modelo cultural, um conjunto de princípios, de valores. Consideração pelo natural e pela sua sobrevivência e afirmação de intencionalidade humana. Nem todas as artes, nem toda a pintura , buscam estetizar o mundo. Mas a arquitetura sempre o procurou e com o modernismo, exigiu; o design só o deseja e muitas artes de projeto só pensam nisso. Mas a tradição da pintura como arte não é a mais radical causa da pintura fazer isso. O naturalismo/realismo é a corrente que mais se afasta desse desejo e se coloca na pura contemplação do natural sem vontade de o alterar. As artes autonomizam-se da religião depois de terem surgido dela. O espaço artístico autónomo. A arte assume o papel de dar sentido à existência para o homem, perante as coisas invisíveis ou inexplicáveis, coisa que a religião o fazia. Pretende criar um homem novo. Não será isso uma vã ilusão, ou uma recusa do humanismo? O que move hoje o mundo, não são os intelectuais como o eram desde a Grécia. É a tecnociência. Ela interroga permanentemente, em milhares de centros de investigação do mundo, através das mentes mais dotadas, o que é a vida e tenta dar respostas efetivas. E nós cá fora ansiamos por respostas para os medos, os anseios e os desejos mais variados.


1.5 –Escaleno, sempre me senti em terra própria com os domínios da minha liberdade, de me libertar das peias, das convenções e das normas e das regras que ainda vivi numa escola de artes nos meus 14 anos. E se há conquista marcante da vida artística é a desse quadro que alguns chamam de autenticidade, de individualismo, de narcisismo e hedonismo. Eu sei que esta sociedade capitalista que a esquerda tanto ataca é a que permitiu este mundo em que a ciência e a tecnologia e a gestão com disciplina e rigor, nem sempre adequados e sérios, nos dão soluções para a nossa vidinha. A democracia, o modelo político institucional promove a igualdade ou solidariedade e em que se cultiva a expressão livre e a inovação artística permanente como uma moda, de duração curta e efémera. Ao mesmo tempo rentabiliza economicamente os museus e as salas de concerto com multidões de incertos cultivadores Promove-se, quase como culto, o corpo como fim em si (o que é o hedonismo? através de artes marciais, ginástica, natação, patinagem  etc. Como exercícios e manutenção  e logo como espetáculos artísticos com júris muito rigorosos tecnicamente. Isto só nos pode deixar perplexo! Como podemos encontrar sentido? Claro que hoje em dia a variedade de meios e produtos que o homem utiliza para exercer a sua relação com o meio e com ele mesmo, quase onanística, aumentaram de tal forma, nos últimos 50 anos, que a noção restrita elitista, sofisticada de cultura tem muita dificuldade em se caraterizar, nem digo impor.  O que podemos fazer hoje para, mantendo o direito à autenticidade e liberdade expressiva reencontrar a dimensão dialogal que dantes era uma condição natural da cultura. Tratar nas obras, as coisas e os conteúdos que são pertença e culto do outro e de mim?  O aperfeiçoamento é o objetivo principal das espécies para a sua sobrevivência, lembrando Darwin nos 150 anos da publicação da sua obra maestra. O homem não pode deixar de seguir este ditame. Faz isso com vários aspetos da sua vida, nem sempre bem. Porque é que nas artes a partir da eclosão do modernismo esse deixou de ser um objetivo e um ditame? O desinteresse pelas gerações futuras parece ser umas das tendências do narcisismo. O discurso de muitos jovens artistas e de outros mais idosos assim o revela. As dicotomias parecem ter perdido sentido. Não há espaço ou lugar para a dialética, para a incerteza para a dúvida. Só a suposta realização “autêntica do eu” tem sentido. Não se trata de monismo mas de sujeição de todo a visão da realidade ao seu corpo como subjetivação de si mesmo. O outro não tem sentido, nem há um sentido grupal e social. Quando abordo um livro da literatura destes tempos encontro quase sempre o autor a falar de si. O mundo existe porque ele existe. Dou logo um salto e pego em Camilo. Mas nunca em Pessoa. Estarei longe da realidade cultural dominante?

2.5 – A música pop rock é um âmbito cultural mais consistente. Sempre o terá sido. Ele responde e emana das energias mais comuns e mais acessíveis. É uma prática disseminada, como o futebol, tens muitos fans, ou cultores que sabem as letras e as músicas de cor. O público paga para ver os artistas que só tem êxito se vendem e aí são recompensados. Confunde-se o espetáculo o divertimento, a arte, expressão poética. O conceito de inovação é permanente como na moda, mas é ligeiro epidérmico ou recorrente. Os seus cultores são radicais pois só cultivam certos tipos de música e de autores. Pode exigir erudição, atenção elevada, cognição estruturada, experiencia multifacetada, abertura sensorial.  Fazem a obra pensando no que os outros tenham que lá descobrir mesmo que não lhes interesse nada. Mas o autor é quem manda. As novas ideias boas e más e as obras boas, só nascem no ser individual; mas só ao coletivo organizado, a instituição as reconhece e salva.) A diferença entre alta cultura, média e baixa é o grau de elaboração como sabemos. Não é só erudição mas exigência relacional, interativa, disciplinar, concetual e operativa sempre no nível mais elevado. Os artistas dantes faziam as obras pensando naquilo que as pessoas pensavam das coisas do mundo que eles representavam. Nas artes decorativas (abstração) não era preciso pensar em nada mas sentir e estar em sintonia de gosto, estética. No início do modernismo a estetização tomou conta da arte. Volto a insistir, Equilátero. Só o fator estético contava. Os outros sempre presentes na arte eram desprezados. Hoje o esteticismo tomou conta da nossa vida e do nosso quotidiano. Tudo é design. E o resto ainda existirá? A maquilhagem era arte para Baudelaire e hoje pertence ao domínio do corpo e é um dos exemplos da esteticização da vida cultura como a moda das unhas, dos cortes de cabelo, da tatuagem, etc. A outra área artística que domina a esteticização do mundo é o design de produto e de comunicação. Consumismo e abandono rápido, como exigência do processo. Conhecemos tudo duma forma quase infinita e podemos perder tudo. Tudo se vulgariza. O mundo da cultura, e não só, é como aqueles quebra-cabeças em que vemos uma pequena peça e não sabemos para que se erve e como se liga ao todo, (Lipovetsky). O papel dos intelectuais continuará a ser dar ordem nesse caos, criar vínculos, e coerência entre fatos, obras e conceitos que a vida vai segregando.  


1.6 –A minha conceção de cultura é a de que é conhecimento, razão. No conhecimento há análise, reflexão crítica e compreensão e permanência: na sabedoria à contemplação, intuição e compreensão e permanência. A sabedoria não chega a ser cultura mas é o seu substrato pois está encerrada no eu, não se alarga aos outros. A cultura é o eu com os outros. Começa com o habitual e reiterado contato com um poema, uma pintura, um trecho musical, etc.. Esse contato ainda não é cultura. Só quando refletimos e reconhecemos valores resultantes dessa experiência sensorial, psicológica e concetual é que se inicia o processo cultural. Mas ele só se afirma se há interação com os outros, seja na comunhão dos valores seja na afirmação das diferenças embora a comunhão de valores seja mais compensadora mas pode não ser a mais estimulante e produtiva. Daí o espaço para o confronto cultural. Assim o vejo Escaleno, no centro da polémica que enfrentam as conceções humanistas herdeiras duma tradição da cultura como construtora de identidade coletiva. Ainda como horizonte de sentido para a espécie, e na visão cultivada em muitos meios da pré-cultura hedonista individualista, libertária, anarquista, joga-se na afirmação da autenticidade ou da originalidade não como fim em si para o homem ou artista neste caso. A necessidade em abrir-se a horizontes de sentido e a definição de que é feita em diálogo e em enriquecimento mútuo. O afastamento entre a estética, a  ética e a moral começou já no séc. XIX. Vemos isso bem emVan Gogh, por ex., com dramatismo e sofrimento e vai intensificar-se nos dadaístas com muita ironia e atingir o nível cínico com Duchamp. Ele compreendeu como dispunha de um dispositivo concetual destruidor do sentido como força social e o potente estimulante da vontade individualista e solitária e auto- suficiente. Venceu mas não sabemos em quê porque as obras estão encerradas no seu invólucro de autenticidade não partilhada. Com que fim?

2.6– Reconheço-me nisso, Equilátero. Fazer arte não é a cultura embora seja considerada pela ideologia pósmoderna, na sua dimensão acima de tudo individualista, como a mãe da criatividade, da originalidade, da expressividade. Os pássaros, muitos deles cantam que nos encanta, e presumo que a eles também. Mas não possuem uma cultura do canto. Não chega cantar. Nem chega que outros ouçam o nosso canto. Precisamos de reconhecimento do outro e da posição relativa do nosso canto face aos outros cantos. As artes, as ideias, as crenças, os ritos, não são a cultura, são as matérias da cultura. A cultura é imaterial, volátil mas substancial e condição da vida espiritual. Mas essa cultura está pelas ruas da amargura no campo das artes plásticas, pelo menos. O que é a cultura da pintura? É aquilo sobre que raros escrevem e poucos o leem e muitos raros compreendem e retêm? É a fruição livre , individual, solitária que cada um faz? É a existência de atos públicos a que os média dão relevo e fazem com que se criem filas para ver algo que quando não é anunciado ninguém vai ver? É a existência da história e dos museus? Mas é falta de cultura, a inexistência regular de espaços público ou privados de informação, diálogo e debate entre os atores das artes. As Escolas de Arte deveria ser o ninho do gosto e do culto dessas práticas. Mas são hoje repartições, públicas e privadas, de atribuição de graus académicos que ninguém valoriza. Mas o mais absurdo é que nunca tanto se produziu teoricamente sobre as matérias das artes plásticas e tão pouco se fala disso, se utiliza isso, e se entende para que servirá isso. É a mais hipócrita burocracia encoberta pelo conceito de investigação. As seções de cultura dos jornais e revistas neste país são uma lástima, como já falamos. Leio o El Pais todos os dias, online, e aí as coisas são muito melhores. Mas mesmo assim os espanhóis lamentam-se do “deserto”.  


1.7– Escaleno, estou contigo e também me intriga em que ritmo se fará o progresso da cultura humana. Em 500.000 anos, nos últimos 50 produzimos mais alterações, a todos os níveis, do que nos 499.950 anteriores. Mas estou calmo, e se for para a semana que venha a ordem para que uns eleitos partam para Marte para tentar salvar a espécie, eu continuarei a fazer os meus desenhos e a cuidar dos meus cães que todos os dias esperam comida e carinhos, que lhes faço, inconscientes da história da sua espécie. Para os autores da nossa cultura não há mestre, nem deus, nem norma, nem futuro. Está entregue ao que de si sair. Todos somos artistas. Aquilo que o artista faz é arte. Nos desportos de medida o melhor é o que vai á frente. Nos jogos, o que vence no fim do jogo é o melhor, e assim sempre, sem fim e sem qualquer outro critério. Nas artes o êxito é medido no mercado. Ele existe a partir de redes de interesses e negócios baseados em feiras internacionais e redes de instituições que destilam versões mais regionais e locais por todo o globo. Hoje nas escolas de artes faz-se o que faziam os artistas há 50 anos. Recordas-te como quando andávamos nas Belas Artes nada podia ser feito que já existisse! Era um dos lados do modernismo. O conceito de novo, capital para o modernismo, claudicou no pós perante o, “e porque não”. Mas está tudo tranquilo e sereno. Não há nada a perder nem mesmo o emprego dos docentes. Não há qualquer conceito associado a qualidade, eficácia, necessidade. Há uma certa referência, como na moda, a tendências do momento, que será sempre breve e destinadas ao esquecimento. Diz-se por vezes que os grandes artistas são portadores de um projeto ou corpo poético que se imporá sobre essa circunstância. Deve ser verdade. Para o artista da arte erudita a sacralização da arte pode ser um dos caminhos, como um modernista radical, Mondrian, já propunha, mas considerando que a arte era só estética. A arte trata dos mistérios que são o incompreensível e o inexplicável, por natureza. Enquanto houver mistérios haverá arte. Se é pintura, instalação, fotografia, poesia, música ou teatro isso dependerá do mercado para se impor, mas nunca para se fazer. Basta que um homem faça uma delas para que a possibilidade, esse básico elemento da vida das partículas ou da inteligência cósmica, se concretize e venha a dar origem a algo de novo. Essa coisa também a tecnociência anseia vir a compreender e a dominar. A cultura popular, veiculada, ou não, pelos média, seja de cariz poético ou estritamente plástico, fomentará o prazer, o divertimento, a sedução que são tão necessários à sociedade e aos eruditos, como os românticos bem entenderam. A inteligência crítica, a erudição e o humanismo ético ou moral estarão, como sempre, na primeira linha cultural. A cultura artística sempre foi considerada um domínio da corte. É uma longa tradição centralista que Portugal cultivou mais do que qualquer outro povo na Europa. Ainda hoje só se é gente com um pé em Lisboa. Mas os novos tempos estão a mudar tudo. Hoje o saber e o fazer, desde as universidades em diversas cidades e regiões, às novas instituições culturais, estão a mudar a cena. Este mundo confuso e diverso não deixa, porém, de nos maravilhar e encantar. Mas estamos intranquilos e inseguros. Mas alguma vez deixamos de estar?

2.7 – Também partilho essa tua visão desastrosa duma política cultural centralista, duma corte medieval inculta e iletrada que o modelo francês centralista veio reforçar. Mas pior do que isso é que essa política tende a levar para a corte os melhores e a destruir, pela desertificação humana, a criação de uma sociedade civil consistente e de qualidade. Mesmo assim, como sempre, os criadores nascem por qualquer lado. Mas se há pior terreno para os cultivar é esse da corte, seja a antiga, seja a moderna. A venda em leilão do espólio de diversos bens e de obras de arte de David Bowie foi considerado, nos rodapé  da SIC, como Cultura. Mas trata-se só de negócio. É uma notícia que só interessa aos negociantes. Mas para os jornalistas da SIC é cultura. Para que servem estes estratagemas comunicacionais? A cultura precisa de existir? É preciso um Ministério da Cultura para quê? É um instrumento centralista?  Para gastar dinheiro com os funcionários?  Para dominar controlar e orientar? Só começou a haver cultura com a moda da história de arte, ou já Platão, Plinio,Vasari era nessa coisa que pensavam quando olhavam as cenas dos Vasos Gregos, os frescos de Pompeia, ou os frescos de Miguel Ângelo? Se cultura é tomar na sua mão o destino do que se fez, do que se faz, e do que venha a ser, então cultura é designação na modernidade de ações que procurem dar sentido à existência do homem. Antes do séc. XVIII não se fala dela. A Cultura “ à francesa” era um estado institucional que resguardava as obras passadas, as classificava e orientava para que no futuro viessem a ocupar o seu lugar nesse panteão. Havia a cultura nacional, a pintura nacional, as academias, os laureados, os prémios, etc. Na cultura a que pertencemos espera-se que desenvolvamos pela reflexão solitária, as nossas opiniões. Até um nível considerável. Mas não é o mesmo quando tratamos de matérias importantes, como a nossa identidade ou caráter. Nós definimo-nos em diálogo, muitas vezes por oposição com a identidade dos outros. Assim a cultura é sempre mais o resultado da interação do que da afirmação isolada e solitária.  Quando há dias via, de novo, uma edição fac-similada das Trois belles Heures du Duc de Berry, dos irmãos Limburg, ficou de novo claro como ser pintor naquele tempo era muito diferente do que o é no nosso tempo. E isso só nesta perspetiva que venho a falar. Para os Limburg construir uma imagem era uma complexa rede de singularidades e intencionalidades  pessoais em relação com as expetativas e as convenções que a natureza do poder e da religião configuravam como realidade. Hoje, há poucos anos, ninguém entende o que possa ser isso. As obras não se radicam a países, nem povos, nem grupos. A total autonomia do artista como garantia primeira e última da criatividade deve ser assegurada. O seu papel só pode ser satisfazer o presente. Esse presente é curto, como podemos ver pela vida dos prémios Turner, pois tem que ceder espaço, não lugar, que é coisa sem sentido, ao que vem aí. Ser chinês, malaio, uruguaio, queniano, eslovaco é indiferente e irrelevante. Tem que ser original e inovador, se puder, inventivo. O seu tempo pode ser glorioso mas será breve, pois está desligado, está solto, como se vogasse no espaço sideral como os astronautas na F.C. Não mais vai ser recordado pois não há cultura, isto é culto, reverencia, atenção, herdeiros, etc.. A cultura é a recusa do esquecimento.


1.8 – Há mais de 20 anos as críticas contundentes à sociedade individualista, narcísica, hedonista, libertária, não solidária e não racional, não replicativa, deu origem a diversas teorias sobre o entendimento do fenómeno e sua integração ou aceitação e à sua recusa e combate. Esta é a questão central, ainda hoje, da cultura como afirmação de sentido. Será que para o homem da sociedade avançada capitalista, liberal e global, a existência de sentido de futuro e, por isso, de sentido no presente, não existe. Sempre achei que os estudantes em 90 não se viam como eu me via, na idade deles, nos anos 60. A ligação que mantinham entre si e com projetos institucionais eram desprezada. Já eu nos anos 60 sentia que muitos artistas consideravam o que faziam desligado de qualquer tipo de compromisso, de serviço, de sentido a não ser o serviço a si mesmo. Existe algo para além do eu? A contenção parece ser uma exigência ecológica. Cada ser não pode pensar ou viver como se nada existisse para além dele. A subjetividade baseada no modo, na matéria ou assunto é redutora. A autenticidade não pode encerrar-se no sentido do sujeito para si mesmo. A verdadeira plenitude  ou assunção do sujeito só pode ser feita em relação com algo que o transcenda ou lhe seja estranho. O antropocentrismo tem na vida artística modernista um terreno de eleição. Talvez maior do que na ecologia. Nesta admite-se que lhe possa vir a ser fatal. Mas na cultura artística não haverá já sintomas de entropia e esvaziamento?
A retórica da diferença, da diversidade e do multiculturalismo constitui um aspeto essencial da cultura contemporânea. A valorização de qualquer escolha não é assumida como diferença mas como indiferente. O princípio subjetivista nega a existência de um horizonte com um sentido pré-existente, anterior à escolha. Aquilo que podemos chamar horizonte é uma referência para que haja significado que se constrói. Esse valor é depois, por incorporação, presente na interpretação e valoração de outros fenómenos, eventos ou obras. A cultura artística era a posse da obra. Ainda o será? Há anos e séculos os particulares mandavam fazer obras que usufruíam pessoalmente e privadamente. O poder público mandava fazer obras que as pessoas em geral usufruem livremente e quotidianamente. Mas por delegação ou passivamente. Veja-se a “vida” das obras que povoam as estações de Metro em Lisboa! Mas em Lisboa ninguém duvidará que é “um grande gesto cultural e artístico”.  Escaleno, ao fim desta conversa acaba de vir ao de cima uma questão da relação da crença com a cultura. Em diversas sociedades a crença num ser superior e noutras formas de vida desvalorizou o papel central da Cultura. A entrega à contemplação, à oração, o abandono dos bens materiais e à volição por uma outra vida melhor, do que o de melhor esta possa dar, contínua. Desde as planícies da India, aos altos vales dos Himalaias, aos Mosteiros cristãos, sem o sacrífico da vida do crente, como os muçulmanos assim o entendem com base no ódio ao outro, essa prática anti-cultural e anti-humana, mas talvez divina, os homens procuram sentido. Essa perspetiva existencial solitária e exemplar continua a ser exercida, eu ia a dizer, cultivada. Mas pode ela atrair um crente? 

2.8 – "Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis", como diria Cândido, quando conheceu todos os males do mundo depois de ter sido educado por Pangloss nas melhores das virtudes, mesmo que à sua volta tudo parecia estar fora do sítio ou a caminhar para o abismo. "Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis",…"devemos cultivar o nosso jardim." A posição centrada na autenticidade absoluta do sujeito, da sua expressividade como fim em si e a posição crítica dessa liberdade foi conquista da modernidade. A progressão ética do homem tem que dar origem a uma posição que inclua o planeta no horizonte de sentido. Na ecologia há quem pense que o dióxido de carbono é um mal para o homem, e não entende que é um mal para o planeta a que pertence o homem. A cultura artística em última instância não existe para que o homem reforce o seu orgulho antropocêntrico como sujeito que se exprime totalmente. A sua expressão total só existirá se nele estiver incluída a diversidade do outro e do próprio horizonte de ser coletivo. Responder à questão, VALE A PENA MORRER PELA CULTURA ARTÍSTICA ?  é para mim evidente. Não. Se perguntarmos se vale a pena morrer pelo país, pela nação, pela pátria estamos a perguntar se vale a pena morrer pela nossa cultura. E quem sabe o que é a nossa cultura de ocidentais, europeus, liberais, democratas e individualistas mesmo diante das imagens de destruição das ruinas clássicas de Palmira pelos Jihadistas? Porque só podemos morrer pelo que tem sentido, futuro. A cultura só existe sendo uma realidade coletiva grupal. As pessoas sempre se mataram por ideais e também por amor de outro. Não creio que alguém se tenha matado por amor à arte. Normalmente vive-se por amor à arte. Neste tempo a cultura é campo de divergência, de diferença, de afirmação, não é aquela realidade a que se referiam os antropólogos clássicos acerca da totalidade que era a vida simbólica material, física, sentimental, religiosa de um grupo de humanos. Nessa relação do individuo consigo mesmo e ainda num tempo em que o individuo moderno deixou de acreditar que haja qualquer coisa em que acreditar resta, no fundo de cada um, a incompreensibilidade. Eu não acredito, não sei porque não acredito e não sei porque a minha consciência é tão limitada.
Dezembro de 2016







AGUARELAS 
A partir dos DESENHOS SEM PENSAR


 
acompanhamento




















esperado esperando





















inexplicado aceitável






















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Reposição de algumas imagens













































































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Reposição e revelação de imagens da série
Cenas em frente ao mar 





























DESENHOS SEM PENSAR 

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Série de 2010



























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